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‘Negar uma identidade é negar o seu passado’, defende quebradeira de coco mestra em antropologia

Secretária executiva da RAMA, Ariana Gomes tem trajetória marcada pela luta das quebradeiras de coco babaçu e pela defesa dos territórios tradicionais.

A história de Ariana Gomes, quebradeira de coco babaçu, antropóloga e secretária executiva da Rede de Agroecologia do Maranhão (RAMA), ganhou destaque nacional em reportagem do Brasil de Fato. Nascida nos babaçuais da Mata dos Cocais, Ariana carrega na própria trajetória a força das mulheres que defendem o território, a identidade e o direito de existir dos povos do campo, da floresta e das águas.


A reportagem foi publicada originalmente no site do Brasil de Fato, com texto de Felipe Sabrina, em 11 de fevereiro de 2026, e é reproduzida aqui na íntegra.


A quebradeira de coco babaçu e antropóloga Ariana Gomes mostra o troféu que ganhou por seu livro | Crédito: Marciel Pires
A quebradeira de coco babaçu e antropóloga Ariana Gomes mostra o troféu que ganhou por seu livro | Crédito: Marciel Pires

O escritório onde Ariana Gomes trabalha é pequeno. Tem uns 12 metros quadrados, e comporta uma mesa em L com um notebook e uma impressora, uma cadeira giratória, um sofá de dois lugares e uma pequena estante com livros. Na estante, moram um cacto e uma jiboia em dois pequenos vasos. Em um vaso maior, no chão, um feixe de espadas de São Jorge e de Santa Bárbara sobressai bem verde e volumoso. Logo acima das espadas, na parede, um Filtro dos Sonhos feito de crochê e vagens secas da árvore sibipiruna terminam de decorar o espaço profissional, construído na parte de cima da casa de dois andares, como um ático, entre o telhado e o forro do imóvel. É naquele escritório, instalado na residência de Ariana no município de Viana, na baixada maranhense, que a assistente social e mestra em antropologia despacha os compromissos acadêmicos e as atividades que lidera como secretária-executiva da Rede de Agroecologia do Maranhão (Rama).


O trabalho e o espaço que conheci quando fui entrevistá-la são muito diferentes daqueles que Ariana me apresentou como o centro da sua vida laboral. Ela se identifica, em primeiro lugar, como quebradeira de coco babaçu. “Negar uma identidade é negar o seu passado. Primeiro eu sou a Ariana quebradeira de coco, depois eu sou as outras coisas”, ela diz. Ariana, hoje com 37 anos, se fez quebradeira ainda criança ao lado da mãe, da avó, das tias e outras mulheres da família na comunidade rural de Ludovico, em Lago do Junco, Maranhão, onde nasceu. Viveu 21 anos lá, até se mudar para Viana para trabalhar como assessora no Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu (Miqcb).


“Quando perguntam ‘tu é daqui [de Viana?]’, eu digo que eu estou de passagem. Apesar de ter mais de 14 anos [morando], a gente não consegue de fato criar uma relação tão profunda como essa relação que a gente tem do lugar que a gente nasceu, onde o umbigo foi enterrado. Eu sempre vou dizer que lá [em Lago do Junco] é que é o meu território”.


Os anos que passou em Ludovico, em meio às árvores e igarapés do Cerrado, entre brincadeiras de criança no chão de terra, a lida na roça com os pais e a quebra do coco babaçu com a mãe até a hora de ir para o colégio, deixaram nela ensinamentos profundos e um horizonte claro de atuação profissional: sentada no chão quebrando coco ou nas cadeiras das instituições de ensino, a palmeira de babaçu e o trabalho como quebradeira seriam seu eixo.


A grande mãe do Cerrado


Ariana vem de uma linhagem de mulheres que fez de uma palmeira sua identidade. A palmeira de coco babaçu é tida como uma grande mãe pelas quebradeiras, pois é de seus frutos, ou melhor, da sua estrutura toda, que tiram o suficiente para sustentar a família. Ser quebradeira não é apenas um ofício, mas um modo de ser e estar no mundo.


Do coco elas extraem a amêndoa, que pode ser vendida in natura, ralada e espremida como leite, ou prensada e beneficiada como azeite ou óleo. Da entrecasca do coco se faz o mesocarpo, uma espécie de farinha usada para fazer bolo ou como achocolatado em pó. Da casca que resta do coco se faz o carvão, até hoje usado nos fogões à lenha ainda muito comuns na zona rural do Maranhão. Das palhas da palmeira são feitos os telhados que cobrem as casas de barro. Trançadas, as palhas viram cestos, peneiras, chapéus, abanadores, portas e anteparos móveis – como biombos – e outros artefatos. Tudo depende da habilidade do artesão ou da artesã. Sem as folhas, o talo da palmeira ainda pode ser transformado em estacas para cercar roças, chiqueiros e galinheiros, ou em estrutura para as casas, que depois serão preenchidas com barro. E tudo isso sem precisar derrubar uma única palmeira. O coco cai quando está pronto para ser juntado do chão, como se diz, e também é possível cortar o cacho com os cocos ainda presos nele, além das palhas e talos. Se por algum motivo uma palmeira tomba, seu tronco ainda vira adubo para outras plantas.


“A gente tem essa relação de reciprocidade com a palmeira. Ela dá todo esse fruto, todos esses benefícios pra gente, mas, em contrapartida, a gente precisa cuidar dela. Por isso que muitas de nós, quando vê alguém derrubando uma palmeira, chora. Porque tem essa relação de pertencimento e de cuidado. Por que eu vou deixar morrer uma pessoa que sempre me deu sustento?”


Babaçu livre graças às quebradeiras


Ariana viveu e ainda vive de perto a luta das quebradeiras para garantir os babaçuais livres e em pé no Maranhão. Lago do Junco fica em uma região conhecida como Mata dos Cocais, uma zona de transição entre os biomas Amazônia, Cerrado e Caatinga, que abrange Maranhão, Piauí e partes do Pará, Ceará e Tocantins. Devido à sua resistência em relação a outras espécies vegetais, a palmeira de babaçu sobressaiu em quantidade na região, garantindo o sustento, de geração em geração, de milhares de famílias camponesas, indígenas e quilombolas.


No entanto, desde os anos 1970, o acesso aos palmeirais e ao coco babaçu como fonte de alimento e renda para as famílias começou a ser cerceado pela elite política e agrária no Maranhão. Legislações fundiárias e projetos de incentivos públicos favoreceram a compra de grandes porções de terras públicas por grupos econômicos de dentro e de fora do Maranhão. Estes ainda puderam acessar recursos públicos para implantar monocultivos e pastos para gado. O detalhe é que nessas terras vendidas a latifundiários – e muitas francamente invadidas por eles –, já haviam povos e comunidades tradicionais vivendo e produzindo há gerações. Teve início, então, uma escalada de violência no campo, com cercamentos e derrubadas dos babaçuais, imposição do regime de pagamento de foro, pistolagem, perseguição, humilhações, assassinatos e expulsão das famílias dos seus territórios tradicionais.


“Ei, não derruba esta palmeira. Ei, não devore os palmeirais”, exorta um conhecido xote entoado pelas quebradeiras de coco nas rodas de quebra ou manifestações públicas. Graças à luta dessas mulheres, que se recusam a ver os babaçuais cercados ou tombados, e tão pouco entregar o fruto de seu trabalho na quebra do coco para ser apropriado por latifundiários por meio do foro, os babaçuais resistem em pé ainda hoje.


Foram criadas leis estaduais no Maranhão, Tocantins, Pará e Piauí, além de leis municipais, que proíbem a derrubada das palmeiras de babaçu e garantem o livre acesso das quebradeiras aos babaçuais, em áreas privadas ou públicas, para que exerçam seu ofício. No documentário Babaçu Livre, de 2000, sobre a luta das mulheres por seus direitos aos babaçuais, Ariana aparece ainda criança, com cerca de 11 anos, quebrando coco e acompanhando a lida no campo junto com as mulheres mais velhas.


Um mestrado com revolta


Das cicatrizes nas mãos às lembranças do dia a dia nos babaçuais, Ariana Gomes herdou ainda mais da quebra do coco: a possibilidade de estudar. “Eu estudei na Escola Familiar Agrícola de Ensino Fundamental [onde alunas e alunos passam metade do mês na escola, e outra metade em casa]. Então, os 15 dias que eu passava em casa, a gente quebrava coco para poder comprar os alimentos que eu tinha que levar. Cada aluno tinha uma cota, tantos quilos de arroz, tanto de feijão. A gente precisava contribuir para se manter os 15 dias [na escola]. Nos 15 dias que eu ficava em casa, eu me dividia entre estudar e quebrar o coco. A gente começava a estudar já muito tarde. Eu aprendi a ler quando eu tinha nove anos. Hoje, as crianças com cinco já estão aprendendo”, conta Ariana.


A mãe, Alaice Gomes da Silva, foi uma importante incentivadora dos estudos, mesmo em meio às dificuldades. Em 2009, o pai de Ariana, Raimundo Nonato Alves da Silva, foi trabalhar em fazendas do agronegócio no Mato Grosso, onde mora até hoje, voltando de tempos em tempos para a casa da família na comunidade Ludovico, em Lago do Junco. Alaice ficou com toda a responsabilidade de cuidar dos sete filhos, cinco moças e dois rapazes. “Se eu estudava à tarde, quebrava coco até meio-dia, e depois ia para a escola. Se estudava de manhã, à tarde eu quebrava. Sempre teve esse compromisso de estudar, mas também de trabalhar, porque a gente não queria ver a mãe da gente sozinha quebrando coco e tendo que sustentar tantas pessoas”.


Formada assistente social pela Faculdade do Maranhão (Facam), Ariana Gomes defendeu em 2023, na Universidade Estadual do Maranhão (Uema), a dissertação de mestrado “Coco e cocar: lutas, resistências e identidades compartilhadas das indígenas e quebradeiras de coco Akroá Gamella em Viana, Maranhão”. No ano seguinte, recebeu o 7º Prêmio Emanoel Gomes de Moura de Teses e Dissertações da Uema pela excelência do trabalho, que foi transformado em livro em 2025. A qualidade do trabalho não deixa entrever o doloroso processo de iniciar a pós-graduação a partir de uma revolta profunda, como conta Ariana na entrevista a seguir.


Brasil de Fato: Por que decidiu ingressar no mestrado?


Ariana Gomes: A minha ida para o mestrado foi um processo de revolta interna. [Pensei]: para que eu quero ir para o mestrado? O que eu já faço, o que eu sei, talvez já seja o suficiente. Eu tinha, e ainda tenho, esse olhar de que a academia [é um espaço] de colonizador, de opressão, de que quem está ali são as pessoas que geralmente tiveram mais oportunidades. Eu tinha muito esse conflito interno, [de pensar] ‘eu não vou dar conta, porque eu tenho que trabalhar, eu tenho filho para olhar, para cuidar’. E aí, quando finalmente consegui fazer, tinha que fazer a partir de uma pesquisa que tinha sentido onde eu estou pesquisando. Porque nunca foi para o ego pessoal, de uma escrita, por conta do título de mestre. É tão tanto que quase nunca faço referência que eu sou mestre. Para mim não tem importância o título.


Quais foram os desafios que você enfrentou no mestrado?


Foi um desafio trazer a memória. A memória do que eu vivenciei, do que as mulheres vivenciaram antes de mim, do presente que elas estavam vivenciando no dia a dia, das retomadas, e também da negação de uma identidade que fortalecia e fortalece a luta pela questão comum, que é a luta pelo território.


Negação de qual identidade?


[A identidade] tanto de quem se identifica como indígena, mas também daquelas que se identificam como quebradeiras de coco e indígenas. Qual o problema de elas se autodefinirem com mais de uma identidade? Essa era uma das questões que eu estava pesquisando. [Eu estava] tentando entender para escrever e não colocar em risco uma luta de um povo. Como é que eu vou trazer isso? Como eu vou usar palavras, ou quais palavras eu não devo usar, para que eu não coloque em risco uma luta coletiva, com um sentido coletivo? Ambos [indígenas e quebradeiras] querem o seu território demarcado e titulado.


Cena do documentário Babaçu Livre | Crédito: Reprodução
Cena do documentário Babaçu Livre | Crédito: Reprodução

Como essa questão das identidades ficava explícita na fala das quebradeiras?


Eu fui tentando trazer o registro da memória das quebradeiras. [Elas diziam]: ‘antes da autoafirmação de indígena, a gente já fazia luta aqui [nos babaçuais]. Quantas vezes a gente foi para a frente de Fulano que estava devastando o babaçual na beira do igarapé, e a gente impedia que a devastação continuasse. Então nós estamos hoje aqui contando a nossa história porque alguém lembra de como foi, e porque alguém nos contou’. E isso é luta, isso é memória que elas traziam. E elas diziam assim: ‘mas o que a gente fala aqui não serve, porque ninguém escreve, e se não escreve, a gente não vai ser lembrado’. Então eu fui tentando trazer essa memória do que elas falavam para que ficasse registrado, para que quem for ler futuramente também saiba como isso ocorreu. É uma luta não só a partir de 2013, com a retomada étnica. É uma luta, inclusive, anterior à luta das quebradeiras. É uma luta dos indígenas desde sempre, para sobreviver a partir dessas estratégias. Inclusive de memória dos silenciamentos. Quando se silencia, também é um ponto importante de se registrar nessa memória. Como se registra o período de silenciamento desse povo como forma de se manterem vivos e vivas? Tudo isso eu tentei trazer a partir dos relatos etnográficos.


As retomadas mais recentes dos Akroá Gamella começaram em 2013, com o processo de autoidentificação. Como a luta das quebradeiras de coco do povo Akroá Gamella se relacionam no seu trabalho?


Tudo o que eu fui lendo tinha um registro de falas de homens se autoidentificando como indígenas. Eu me perguntei: cadê o outro povo organizado que está lá? Qual outro coletivo está lá? Quando, em 2013, teve a autorretomada étnica, o movimento [das quebradeiras de coco] já estava ali fazendo processo de articulação das quebradeiras desde a sua fundação, em 1990. E aí passa a ser invisibilizada a luta do movimento, a luta das quebradeiras. E elas [demonstravam] angústias muito grandes. E eu participava dessa angústia porque eu estava ali, muito presente com elas. Elas diziam ‘poxa, quer dizer que a gente não é reconhecido, a gente não é vista só porque a gente tem esse processo de autoafirmação também como quebradeira de coco? A gente não quer atrapalhar o processo de demarcação’. O Estado pensa que as identidades são essencializadas. Se tu é indígena, é só indígena. Se tu é quilombola, é só quilombola. Então as políticas públicas também são violentas e racistas, de certa forma, porque só pensam as identidades no quadrado. Elas diziam que estavam para somar, e não dividir. Nós acreditamos que no processo de organização, nós podemos nos somar e fortalecer essa luta pelo território.


Como foi o processo de pesquisa bibliográfica?


No meu trabalho eu uso relatos etnográficos. Na antropologia, e principalmente no programa que eu fiz, da cartografia social, se leva muito em consideração essa relação de quem está pesquisando com quem está sendo pesquisado. Tem essa relação [bibliográfica] com escritores e grandes pensadores, mas a essência vem do território, o conhecimento vem do território. Eu uso os autores [clássicos], mas tentei também trazer escritores que já pesquisaram, como Ana Mendes, Davi Pereira Júnior, de Alcântara; Meire Diniz, do Cimi [Conselho Indigenista Missionário] Maranhão, da Silmara Moraes, da CPT [Comissão Pastoral da Terra] Maranhão. Os autores que eu trouxe foram os nossos autores, gente como a gente. Eu tentei priorizar para dar valor e mostrar que nós também, enquanto povo, pessoas que vêm das comunidades, também somos capazes de escrever bem, assim como esses autores que são renomados, mas que, às vezes, não têm relação com o próprio território, e utilizam nossas pesquisas para ganhar nome e títulos. Sem perder o rigor, a gente consegue fazer um trabalho a partir dessas memórias e vivências.


Quais são suas memórias de leitura na infância?


Na semana passada, inclusive, eu estava mudando uns livros e lembrando: hoje eu tenho uma biblioteca, mas minha infância não foi de leituras, a gente não tinha oportunidade de comprar um livro. E nem as escolas ofereciam. No máximo você tinha algum livro didático, mas não era comum você ter livros em casa. E eu sempre gostei de ler. Então tudo que era livro que eu tinha oportunidade de ler, eu sentava debaixo de uma árvore, que ainda hoje tem lá em casa, e ficava de perna para cima lendo. Eu não cresci no mundo das leituras. E é uma dificuldade quando você vai para a academia, porque você vai concorrer com pessoas que vêm do universo de leituras, que cresceram no meio de livros, com instrumentos de pesquisa, internet. A gente não tinha nada disso. Hoje eu tenho o privilégio, depois de tantos anos, de poder ter livros. O meu filho tem esse privilégio desde pequeno também, de gostar de ler e de ter livros.


Qual é a sua identidade?


A minha identidade é de quebradeira de coco. O [antropólogo] Alfredo [Wagner] sempre diz que ser quebradeira de coco não está relacionado apenas ao ato da quebra, mas também, a partir de quem vem do território, da luta na defesa dos babaçuais. O que eu faço hoje é pela defesa dos babaçuais, das quebradeiras, dos territórios e de políticas públicas para as quebradeiras de coco. E por que que eu não vou me autoidentificar como quebradeira se eu tenho essa raiz lá dos babaçuais, se eu conto a história deles, se a minha família toda é de quebradeira de coco? Eu tenho um trabalho CLT, fiz mestrado, sou professora, e, por isso, não sou mais quebradeira de coco? Negar uma identidade é negar o seu passado. Primeiro, eu sou a Ariana, quebradeira de coco, depois eu sou as outras coisas.


Como era sua relação com as quebradeiras durante a pesquisa?


Essa foi uma questão bem intensa no período da pesquisa. Antes mesmo de começar a pesquisa, eu apresentei o projeto a elas. Perguntei: está bom assim? Fiquei o tempo todo preocupada, porque falar sobre os Akroá Gamella não é fácil, por conta da complexidade de entender essa coletividade, entender as relações no território, a multiplicidade étnica. Eu tinha que lidar com as quebradeiras, que para mim era super tranquilo, e é, mas também lidar com o Conselho [dos Indígenas Akroá Gamella], que é formado por várias pessoas, várias cabeças com vários pensamentos. A partir do momento que eu chego no território, eu estou como pesquisadora, e isso já tem um poder simbólico. Rosa [Gregória, quebradeira de coco] fez uma fala assim: ‘olha, tu é quebradeira, mas aqui, quando você vem como pesquisadora, nós vamos te olhar como pesquisadora’. A pesquisadora, para elas, não é alguém para quem vão poder abrir todos os segredos, as questões internas, os conflitos. Seria diferente se eu fosse lá só como assessora do Miqcb, ou só como quebradeira. Essas relações são diferentes. Elas ficam com medo de serem enganadas, de a gente interpretar e escrever algo que não é exatamente como ela disse, e isso criar conflito.


Como você contornou isso?


Quando eu ia, eu avisava que estava indo para tratar da pesquisa, então me tratava como pesquisadora. É óbvio que foi muito mais fácil porque eu já tinha a vivência com elas, de ir para a quebra do coco com elas, então elas diziam ‘olha, isso aqui eu sei que tu sabe, mas isso tu não bota [na pesquisa]. É como dizer ‘tu é [uma de nós], mas tu não é’. Foi muito importante, porque primeiro eu tenho que saber diferenciar o meu papel de pesquisadora, mas eu também fazia parte daquela luta. Eu estive com elas em vários momentos muito difíceis da vida delas, do povo, ao ponto em que acreditar na luta me colocou em momentos de risco. Mas a gente é movido pela relação de confiança, pela militância, e isso vem de eu me sentir parte. Antes de encerrar [a pesquisa], de apresentar como dissertação final, eu apresentei para o Conselho dos Indígenas e também apresentei para elas. Levei o banner dos mapas que foram produzidos, deixei no território. Levei duas cópias da dissertação, uma para as quebradeiras, uma para o Conselho.


Como é sua relação com a palmeira de coco babaçu?


A primeira coisa é que se não existisse a palmeira, não existiria a quebradeira. Então é uma relação de existência, dessa identidade que é objetivada em movimento, algo que o Alfredo Wagner traz também em seus textos. E a partir de várias mulheres organizadas, surge um grande movimento, que é o Movimento Interestadual das Quebradeiras de Corpo Babaçu, o Miqcb. As mulheres pertencem ao babaçual, assim como os babaçuais pertencem às mulheres. Não, no sentido da propriedade privada, como os fazendeiros e pecuaristas têm. Entre as quebradeiras, as relações são coletivas. A gente não quer o babaçual só para a gente, e nem preso. A gente quer o babaçual livre. E quem quiser utilizar daquele bem comum, que é a palmeira, que utilize, seja o coco para quebrar e usar a amêndoa para fazer o azeite, para fazer o óleo, para fazer o leite, seja o mesocarpo [da entrecasca] para fazer o fubá de babaçu, seja o agricultor, que precisa da palha da palmeira para cobrir sua casa.


Como a industrialização do coco babaçu afeta a vida das quebradeiras hoje?


Muito dos produtos que a palmeira dá já são vistos com um olhar de ganância de fazendeiros. Tem um grande supermercado de Codó (Maranhão) que explora a mão de obra das quebradeiras para comprar a amêndoa e produzir sabão. Eles exploram a mão de obra das quebradeiras de várias outras regiões do Maranhão e do Piauí. Inclusive, tem um bairro em Codó chamado Bairro Novo, que foi formado por mulheres que foram expulsas [pelo empresário dono do supermercado] dos seus territórios, e moram hoje na periferia da cidade. O Miqcb trabalha com essas quebradeiras. Esse olhar de uso do babaçu como um produto que vai gerar lucro não é o mesmo olhar das quebradeiras. Corre-se o risco de quererem patentear produtos, o óleo, o mesocarpo, produzindo outros alimentos que talvez a gente nem tenha a chance de consumir.


Você acha que atingiu o objetivo que idealizou com sua dissertação de mestrado?


Acho que o objetivo do projeto vai se cumprindo ao longo do processo, que é a dissertação servir não só para reflexão interna, de auto-organização, de entender os pertencimentos, mas também servir de reflexão para a equipe do grupo de trabalho que foi contratada pela Funai [Fundação Nacional dos Povos Indígenas] para fazer o relatório antropológico. A dissertação está servindo como base também de reflexão para esse grupo, eles estão utilizando. Já tive uma conversa com o antropólogo que está coordenando o grupo de trabalho, para explicar que as quebradeiras não podem ser invisibilizadas, porque esse status de luta por território é visto como uma luta de homem, mas não é. É uma luta coletiva, e as mulheres precisam ser vistas, mesmo quando elas estão na cozinha preparando comida, porque se não tiver comida, também não tem luta para quem tá lá na BR [em protestos]. Quem está na cozinha também faz luta por território. E não só as quebradeiras que estão em aldeias autodeclaradas, mas têm as outras também que estão no entorno. Os próprios mapas que construí vão servir como base para pensar esse território demarcado com os próprios pés.


*A publicação desse texto é uma parceria com a organização alemã Salve a Floresta – Rettet den Regenwald e.V.


Editado por: Luís Indriunas



A trajetória de Ariana expressa a força das quebradeiras de coco babaçu e de todos os povos e comunidades tradicionais que seguem defendendo seus territórios, sua identidade e o bem viver diante das violências do agronegócio e das ameaças aos babaçuais do Maranhão.

 
 
 

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