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Balanço de 2025: Mapa do Veneno consolida rastro da guerra química em 110 comunidades no Maranhão

Um total de 110 comunidades tradicionais, espalhadas por 29 municípios do Maranhão, foram impactadas pela pulverização de agrotóxicos em 2025, conforme monitoramento da Rede de Agroecologia do Maranhão (RAMA), em parceria com o Laboratório de Extensão, Pesquisa e Ensino de Geografia da UFMA (LEPENG/UFMA) e a Federação dos Trabalhadores Rurais (FETAEMA).


Os dados finais do ano revelam uma aparente queda de 52% no número de comunidades atingidas em relação a 2024, quando 231 comunidades em 35 municípios foram vitimadas. Este cenário, porém, longe de ser uma boa notícia, é na verdade um alerta que pode demonstrar um contexto agudo de subnotificação, medo e o aperfeiçoamento de táticas de intimidação e ocultação pelo agronegócio.


O ano terminou com novos ataques. Em dezembro, outras 5 comunidades em dois municípios foram atingidas, nos municípios de Buriticupu, a Vila Hosana e em Codó, as comunidades de Anajá, Boa Hora, São Bento e São Benedito sofreram com a pulverização, tendo o avião como principal meio de aplicação.



Os Números da Guerra Química: 2024 e 2025

O comparativo abaixo evidencia a violência contínua e a distorção causada pelo silenciamento forçado.

Período

Comunidades Atingidas

Municípios com Ocorrências

Observação

2024 (Total Anual)

231 comunidades

35 municípios

Dados consolidados de janeiro a dezembro de 2024.

Jan-Jun 2025

100 comunidades

25 municípios

Queda de 39,7% em relação ao período anterior, já indicando subnotificação.

Agosto e novembro 2025

0 denúncias registradas

-

Silêncio considerado grave sintoma de intimidação.

Dezembro 2025

+5 comunidades

2 municípios (Buriticupu, Codó)

Ataques com pulverização aérea por avião e carro pipa

TOTAL 2025

110 comunidades

29 municípios

Número final, abaixo da metade do registrado em 2024.

 

A Queda Soa como Alarme: Medo, Drones Fantasmas e a Estratégia do Agronegócio


A queda de 52% nas comunidades atingidas (de 231 para 110) e de 17% nos municípios (de 35 para 29) não pode ser lida como uma vitória. Essa redução drástica no número de denúncias não reflete em absoluto a diminuição da violência, mas sim a sua transformação em um mecanismo mais perverso e difícil de combater. A RAMA já alertava em seu balanço do primeiro semestre que a queda anormal era um indício de subnotificação agravada.


As causas são:

  1. Intimidação e Medo Crescentes: Ameaças diretas a lideranças e o avanço dos conflitos no campo silenciam as comunidades. Segundo o relatório Conflitos no Campo Brasil 2024, lançado pela Comissão Pastoral da Terra (CPT), o Maranhão é líder nacional em conflitos agrários. O medo constante paralisa as denúncias.

  2. Táticas de Ocultação: O agronegócio tem aprimorado métodos para evitar flagrantes, como o uso de "drones fantasmas" (sem registros / aeronaves não identificadas) e pulverizações noturnas ou em finais de semana, dificultando a responsabilização.

  3. Contexto Judicial de Retrocesso: No início de 2025, a Justiça Federal liberou a pulverização aérea de glifosato no Maranhão após 11 anos de proibição, desconsiderando evidências de contaminação e mau uso apresentadas pelo MPF. Essa decisão, celebrada pelo sindicato das empresas de aviação agrícola, aumentou a vulnerabilidade das comunidades, amplificou a impunidade e encorajou a prática.


Relação dos Municípios e Comunidades Impactadas pelo agrotóxico de janeiro a dezembro de 2025:

  1. Açailândia: Assentamento Califórnia

  2. Afonso Cunha: Barracão, Olho D'Água do França

  3. Altamira do Maranhão: Caldeirão, Olho D’Água, São Raimundo

  4. Araguanã: Maratoyrenda (TI Alto Turiaçu)

  5. Bacabal: Barreirinhas, Catucá, Fundamento, Jardins, Piratininga, Santa Efigênia, Santa Maria, Santo Antônio, Seco das Mulatas, Sobradinho

  6. Brejo: Boca da Mata, Carrapatinho, Centro dos Netos, Criolis, Faveira, Gameleira, Guarimã, Ingá, Lagoa Seca, Macacos dos Vítos, Panela, Prata, São João dos Pilões, São José, São Raimundo, Tabocas, Várzea do Meio, Veado Branco, Vila das Almas

  7. Buriti: Araçá, Vila

  8. Buriticupu: Vila Hosana

  9. Centro do Guilherme: Inajaiatyrenda (TI Alto Turiaçu), Murutyrenda (TI Alto Turiaçu)

  10. Centro Novo do Maranhão: Gurupiuna (TI Alto Turiaçu)

  11. Codó: Anajá, Boa Hora, São Bento, São Benedito

  12. Duque Bacelar: Paisandu, Roça do Meio

  13. Esperantinópolis: Potó

  14. Imperatriz: Viva Deus

  15. Lago do Junco: Bairro Nova Brasília

  16. Magalhães de Almeida: Alto do Cedro, Entreladeiras, Férias, Lagoa do Bacuri, Oitis, Santa Maria, São João/Tourada, Vargem Grande

  17. Parnarama: Quilombo Cocalinho

  18. Pedro do Rosário: Quadra Trindade

  19. Peritoró: Feliz Alegria

  20. Santa Inês: Bom Jesus

  21. São Benedito do Rio Preto: Baixão dos Rochas, Baixinha, Baixinha dos Carneiros, Cancela, Capelão, Chororó, Macajuba, PA Vista Verde, Quebra Joelho, Santa Rosa, Santo Inácio

  22. São Francisco do Brejão: Centro do Robertão

  23. São Luís Gonzaga do Maranhão: Geré, Mata Burro

  24. São Mateus do Maranhão: Água Branca, Água Branca I, Água Branca II, Água Branca III, Água Branca IV, Água Branca V, Água Branca VI, Água Preta, Alto Grande, Andirobal, Curva, Dendê, Setor MA-01, Vila Nova

  25. São Raimundo do Doca Bezerra: Conrado, Monte Castelo, Três Rios

  26. Timbiras: Canapistola (Território Campestre), Jaibara, Mamorana, Morada Nova, Santa Vitória

  27. Timon: Boa Esperança

  28. Urbanos Santos: Cajazeiras, Serraria, Sítio do Meio, Surrão

  29. Viana: Aldeia Cajueiro, Aldeia Nova Vila, Aldeia Taquaritiua, Baía, Piraí, Vilinha


Face Concreta do Ataque: Saúde, Alimento e Água Envenenadas

Os ataques em Buriticupu e Codó no último mês do ano repetem um padrão de destruição bem conhecido pelos maranhenses. A pulverização aérea, atua como "arma química" para inviabilizar a vida nos territórios. Seus impactos são devastadores:

  • Saúde: As comunidades atingidas relatam sintomas como ardência nos olhos, coceira e feridas na pele, vômitos, tontura e dificuldades respiratórias. A exposição crônica está ligada a doenças graves como câncer e problemas neurológicos.

  • Insegurança Alimentar e Prejuízo Econômico: As lavouras de subsistência, como feijão e mandioca, são destruídas, contaminando a comida e acabando com a renda familiar. O veneno também atinge criações de animais e colmeias, eliminando outras fontes de sustento.

  • Meio Ambiente Contaminado: Rios, igarapés e cacimbões são envenenados, matando peixes e tornando a água imprópria para consumo. O solo e a biodiversidade são intoxicados.

  • Terror Psicológico e Solastalgia: Para além dos danos físicos, as comunidades enfrentam o medo constante, a ansiedade e a solastalgia – o sofrimento de ver seu território ancestral ser destruído e tornar-se irreconhecível.


Por trás destes números, está a face concreta de um projeto de desenvolvimento que transforma territórios tradicionais em zonas de conflito e sacrifícios. A violência química não é um fenômeno isolado, mas parte da estratégia de expansão da última fronteira agrícola do mundo, o MATOPIBA, que transforma o Maranhão em território de devastação, conflito e sacrifícios.


Sob esta lógica, comunidades indígenas como Gurupiuna, Inajatyrenda e Murutyrenda, na Terra Indígena Alto Turiaçu, além de inúmeras comunidades quilombolas e tradicionais, veem seu modo de vida ser atacado diariamente. A pulverização aérea e terrestre de venenos atinge diretamente suas roças, babaçuais, fontes de água e casas, gerando uma crise de saúde pública e insegurança alimentar, numa clara tentativa de forçar o êxodo e abrir espaço para os monocultivos. 


Ao longo de 2025, as denúncias também revelaram o impacto específico sobre as mulheres quebradeiras de coco. Essas mulheres tiveram seus territórios envenenados, causando impactos diretamente em seus corpos e também pela contaminação dos babaçuais. Essa ação criminosa configura-se uma prática de expulsão e de pressão sobre as mulheres em seus territórios. 



A Batalha Institucional


Enquanto o Estado brasileiro segue flexibilizando leis e acelerando a aprovação de agrotóxicos - o país registrou um novo recorde em 2025, com 912 tipos de agrotóxicos liberados, um aumento de 37% em relação ao ano anterior -,  essa contradição se aprofunda ao se considerar que, entre os dez agrotóxicos mais utilizados no Brasil, sete são proibidos em outros países por comprovada relação com doenças graves.


Neste cenário de risco, uma decisão judicial recente trouxe esperança em meio a tantas lutas. A Justiça Federal indeferiu um pedido apresentado pela Federação da Agricultura e Pecuária do Estado do Maranhão (FAEMA) e pelo Sindicato Nacional das Empresas de Aviação Agrícola (SINDAG), que buscavam suspender a Recomendação Conjunta do Ministério Público Federal (MPF) e do Ministério Público do Estado do Maranhão (MPMA) sobre a proibição da pulverização aérea de agrotóxicos. A decisão reafirmou a autonomia dos municípios para legislar sobre o tema. Esta é uma ferramenta importante, já que diversos municípios maranhenses, como Timbiras, possuem leis locais que proíbem a pulverização aérea de agrotóxicos por drone e avião, mesmo que frequentemente desrespeitadas.


A resistência buscou eco internacional. Em 2025, a RAMA levou a denúncia da guerra química a um evento paralelo na Organização das Nações Unidas (ONU), em Genebra. Na ocasião, foi denunciado como a pulverização aérea, além de contaminar corpos e territórios, age como uma ferramenta para romper vínculos ancestrais e forçar a expulsão de comunidades tradicionais, situando as violações no Maranhão dentro do contexto global da crise climática e dos direitos humanos.


A Saída é a Agroecologia


A Agroecologia se consolida como a principal resposta à guerra química, oferecendo um caminho de resiliência climática e saúde. Seus sistemas diversificados, com solos protegidos e florestas em pé, retêm água e recuperam a fertilidade natural, tornando as comunidades mais fortes frente a secas e chuvas extremas. Ao banir os venenos, elimina-se a fonte direta de adoecimento, produzindo alimentos nutritivos que fortalecem o corpo e quebram o ciclo de intoxicação e medo. Essa transição promove uma saúde integral, restaurando o equilíbrio do meio ambiente e o bem-estar físico e mental das populações.

Essa prática é, acima de tudo, um ato de autonomia. Ao resgatar sementes crioulas e conhecimentos tradicionais, as comunidades reassumem o controle sobre seus territórios e sua alimentação, reduzindo a dependência de insumos caros e tóxicos. 


Fortalecer a agroecologia é, portanto, investir em soberania: soberania alimentar, ao garantir comida saudável; soberania hídrica, ao proteger as fontes; e soberania política, ao construir um projeto de vida sustentável e coletivo que resiste aos modelos destrutivos.



Denuncie a guerra química:

  • Canal de Denúncias da RAMA: Envie relatos, fotos e vídeos para o WhatsApp (98) 98522-2988. O anonimato é garantido.


É com os pés no chão e as mãos na terra que as comunidades reafirmam: onde o veneno tenta matar, a agroecologia insiste em fazer viver.


Saiba mais sobre a campanha Chega de Agrotóxicos

 
 
 

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