Mãe Palmeira não se derruba: RAMA manifesta solidariedade às quebradeiras de coco de Marmorana
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Rede de Agroecologia do Maranhão cobra investigação sobre a derrubada de palmeiras de babaçu e o uso de retroescavadeira identificada com a logomarca da Prefeitura de Lago Verde

A Rede de Agroecologia do Maranhão publica esta nota em solidariedade às quebradeiras de coco babaçu e aos moradores do povoado Marmorana, em Lago Verde (MA).
A manifestação ocorre após a denúncia da derrubada de palmeiras de babaçu na área conhecida como Fazenda Sete Voltas. No local, uma retroescavadeira identificada com a logomarca da Prefeitura Municipal de Lago Verde foi registrada atuando junto a palmeiras derrubadas, algumas ainda carregadas de cocos.
A RAMA reafirma o direito das quebradeiras de defender seu trabalho, seus territórios e as palmeiras das quais dependem muitas famílias. Também cobra esclarecimentos da Prefeitura, investigação pelos órgãos competentes e proteção às mulheres que participaram da denúncia e passaram a ser alvo de críticas e tentativas de deslegitimação.
Nota Pública de Solidariedade às Quebradeiras de Coco de Marmorana
A Rede de Agroecologia do Maranhão (RAMA), articulação composta por 20 organizações da sociedade civil e Grupos de Estudos em Agroecologia, com atuação em diversas regiões do estado do Maranhão, manifesta sua profunda solidariedade às quebradeiras de coco babaçu e aos moradores do povoado Marmorana, no município de Lago Verde.
A RAMA também repudia qualquer tentativa de desqualificar, intimidar ou transformar a legítima mobilização das mulheres em disputa político-partidária.
As quebradeiras de coco de Marmorana não se mobilizaram para defender ou atacar qualquer grupo político. Mobilizaram-se para proteger as palmeiras de babaçu, fonte de trabalho, renda, alimento e dignidade para inúmeras famílias que dependem desse patrimônio natural para sua sobrevivência.
O que aconteceu em Marmorana
No dia 12 de agosto de 2026, quebradeiras de coco e moradores denunciaram a derrubada de centenas de palmeiras de babaçu na área conhecida como Fazenda Sete Voltas, no povoado Marmorana.
Registros em vídeo e fotografias mostram uma retroescavadeira identificada com a logomarca da Prefeitura Municipal de Lago Verde atuando no local, ao lado de palmeiras derrubadas, algumas ainda carregadas de cocos.
A mobilização das quebradeiras de coco e da comunidade foi fundamental para interromper a continuidade da derrubada.
Entretanto, permanecem sem resposta questões fundamentais: quem contratou o equipamento, quem autorizou a atividade, qual era sua finalidade e por que o serviço estava sendo executado em uma área particular.
Também precisam ser esclarecidas as informações sobre a retirada posterior da logomarca da Prefeitura e a saída do equipamento escoltado por veículo policial.
O babaçu é vida, trabalho e território
Para as quebradeiras de coco, o babaçu é muito mais do que uma árvore. É a Mãe Palmeira. Dela vêm alimento, renda, remédio, combustível, matéria-prima, memória coletiva e autonomia econômica.
Cada palmeira derrubada representa menos alimento na mesa, menos renda para as famílias e menos oportunidades de trabalho para mulheres que há gerações sustentam seus lares por meio do extrativismo do babaçu.
O corpo das quebradeiras também é território. São elas que caminham pelos babaçuais, coletam os cocos, carregam a produção e mantêm viva uma prática tradicional transmitida entre mães, filhas e netas.
Quando uma palmeira é derrubada ou o acesso aos babaçuais é restringido, a violência atinge diretamente a vida, a saúde, a renda, a memória e a dignidade dessas mulheres.
Respeito às quebradeiras e aos seus saberes
Rejeitamos com firmeza qualquer tentativa de deslegitimar a ação das quebradeiras de coco por meio de acusações, ofensas ou narrativas que busquem diminuir sua importância social e política.
As quebradeiras são trabalhadoras extrativistas, agricultoras familiares, guardiãs da biodiversidade e detentoras de conhecimentos tradicionais construídos ao longo de gerações. Seu saber nasce da convivência cotidiana com os babaçuais e da defesa permanente dos territórios onde vivem.
Chamar essas trabalhadoras de “baderneiras” ou afirmar que elas não possuem conhecimento é uma forma de apagar sua história e negar os saberes construídos por meio do trabalho e da experiência nos territórios.
A luta pelo Babaçu Livre é resultado da organização histórica dessas mulheres e constitui uma das mais importantes experiências de defesa dos direitos territoriais, ambientais e das mulheres no Brasil.
Reconhecimento dos direitos
Em junho de 2026, a Lei Federal nº 15.431 reconheceu o ofício das quebradeiras de coco babaçu como manifestação da cultura nacional.
Esse reconhecimento reafirma a importância histórica, social e cultural do trabalho realizado pelas quebradeiras de coco babaçu nos estados do Maranhão, Piauí, Tocantins e Pará.
Soma-se a esse marco a Recomendação nº 001/2026 do Conselho Estadual de Defesa dos Direitos Humanos do Maranhão, que reafirma a necessidade de proteção dos babaçuais e da garantia dos direitos das quebradeiras.
Esses reconhecimentos demonstram que a defesa dos babaçuais não é apenas uma pauta local. É uma questão de interesse público, ambiental, cultural e social.
A proteção do babaçu e dos direitos das quebradeiras também é resultado de décadas de organização, mobilização e resistência das próprias mulheres, que construíram a luta pelo Babaçu Livre em seus territórios.
Exigimos esclarecimentos e providências
Diante da gravidade dos fatos, a RAMA solicita esclarecimentos públicos sobre:
a origem e a contratação da retroescavadeira utilizada na área;
a finalidade do serviço realizado;
a autorização para o uso do equipamento no local;
a retirada da identificação visual do equipamento;
a saída da máquina escoltada por veículo policial;
a existência de autorizações para a derrubada das palmeiras;
a extensão dos impactos ambientais provocados pela ação;
os possíveis riscos relacionados ao uso de agrotóxicos ou outras substâncias nas pindovas, no solo, na água e nas áreas de coleta.
Também cobramos do Ministério Público Estadual, do Ministério Público Federal, dos órgãos ambientais e das instituições de controle uma investigação séria, independente e célere.
É necessário apurar os fatos, proteger as denunciantes, impedir retaliações, garantir a segurança das trabalhadoras e responsabilizar eventuais autores de irregularidades.
Chamado à solidariedade
Conclamamos sindicatos, movimentos sociais, organizações de direitos humanos, universidades, coletivos, mandatos populares e toda a sociedade maranhense a se solidarizarem com as quebradeiras de coco de Marmorana e a acompanharem atentamente os desdobramentos deste caso.
A luta das quebradeiras de coco não é uma luta isolada. É uma luta pela floresta em pé, pela justiça ambiental, pela autonomia das mulheres, pela proteção dos territórios tradicionais e pelo direito dos povos do campo de viver e existir com dignidade.
Mãe Palmeira não se derruba.
Babaçu Livre é direito, é conquista!
Rede de Agroecologia do Maranhão – RAMA



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