1º semestre de 2026 confirma emergência química no Maranhão
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Relatório do 1º semestre aponta 255 notificações, 46 ataques repetidos e concentração dos casos em 33 municípios.
A Rede de Agroecologia do Maranhão (RAMA), em parceria com o Laboratório de Extensão, Pesquisa e Ensino em Geografia (LEPENG/UFMA) e a Federação dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares do Estado do Maranhão (FETAEMA), divulga o relatório do 1º semestre de 2026 sobre a pulverização de agrotóxicos no estado. Os dados revelam uma emergência química em curso: 255 notificações, 209 comunidades atingidas, 33 municípios afetados e 46 ataques repetidos.
O quadro confirma a continuidade da violência sobre territórios tradicionais, quilombolas, indígenas e camponeses.

A escalada nos três anos
Os dados históricos reforçam a gravidade do quadro. Em 2024, foram registradas 231 notificações. Em 2025, foram 122. E, só no primeiro semestre de 2026, o estado já soma 255 notificações. Ou seja: 2026 já ultrapassou os dois anos anteriores inteiros, escancarando o avanço da guerra química no campo maranhense. No total, são 608 ataques químicos monitorados, um retrato duro da escalada da violência sobre os territórios maranhenses.
Concentração da violência
A concentração territorial também chama atenção. Os dez municípios com maior número de ocorrências respondem por 77,3% das notificações do semestre, com destaque para São Benedito do Rio Preto (46), Chapadinha (34), Anapurus (24), Brejo (23) e Milagres do Maranhão (19). O próprio relatório aponta o Baixo Parnaíba como o principal epicentro desse ataque, concentrando mais da metade das notificações do período.
Tabela-síntese do semestre

Municípios com mais notificações

Fonte: elaboração própria a partir da planilha de sistematização e monitoramento RAMA/FETAEMA/LEPENG-UFMA (2026).
Lista Comunidades Atingidas pelos Impactos da Pulverização de Agrotóxicos no Maranhão - clique aqui.
Drone como principal instrumento de pulverização
Outro dado que merece destaque é o papel do drone como principal meio identificado nas denúncias. Quando o meio de aplicação foi informado pelas comunidades, o drone aparece na frente, seguido pelo avião agrícola. O veneno chega de cima, invade casas, roças, água e quintais, e deixa marcas na saúde, na produção e na vida cotidiana das famílias.
Impactos sobre as comunidades
Entre os impactos relatados estão dor de cabeça, vômito, ardência nos olhos, tontura, febre, desmaio, perda de produção agrícola, contaminação de fontes hídricas e destruição de babaçuais. O relatório mostra que a violência química não atinge apenas a lavoura: ela fere o corpo, a água e o sustento das comunidades.
O próprio relatório também indica que esses números devem ser lidos como piso mínimo da guerra química documentada, porque há subnotificação e medo de represálias nas comunidades atingidas. Isso mostra que o quadro real pode ser ainda maior do que o que já foi possível registrar.
Racismo ambiental
A exposição aos agrotóxicos não acontece de forma aleatória. O relatório reforça que essa violência incide de maneira desproporcional sobre comunidades tradicionais, quilombolas e indígenas, revelando um quadro de racismo ambiental. Na prática, o veneno é lançado sempre com mais força sobre quem já vive sob pressão histórica do agronegócio.
Resposta institucional insuficiente
O relatório também aponta a resposta institucional insuficiente diante da gravidade dos casos. Embora existam denúncias, ações judiciais, recomendações e medidas locais, a proteção efetiva ainda é fragmentada e desigual. Isso revela que o avanço da pulverização tem sido mais rápido do que a capacidade de resposta do Estado.
Resistência e leis municipais
O relatório também evidencia a resposta das comunidades e dos municípios diante da escalada da violência química. Em 2026, Bacabal e Carutapera aprovaram leis municipais proibindo a pulverização aérea de agrotóxicos, visando à proteção da saúde, da água e dos territórios, como reação ao avanço descontrolado do veneno sobre as comunidades. Com essas duas novas leis, o Maranhão chega a 12 municípios com leis municipais em vigor que proíbem a pulverização aérea de agrotóxicos.
Ao mesmo tempo, o relatório mostra que essa disputa segue aberta, com projetos e posições contrárias tramitando em diferentes instâncias, o que mantém a pressão política sobre os municípios e sobre o próprio estado.
Municípios maranhenses com legislação de proibição da pulverização aérea de agrotóxicos (2022–2026):

Drones-fantasma e pulverização noturna
Outro ponto importante é a estratégia de ocultação usada por quem pulveriza. O relatório chama atenção para os chamados drones-fantasma e para as pulverizações feitas durante a madrugada e à noite, o que dificulta a identificação da autoria e amplia a sensação de impunidade. Isso reforça que a violência química também opera pela sombra, pela fuga da fiscalização e pela negação do flagrante.
Casos emblemáticos
Entre os casos mais emblemáticos estão o de Santo Antônio, em Duque Bacelar, onde um drone espalhou agrotóxico sobre casas, contaminou os poços cacimbões usados pela comunidade, destruiu lavouras e intoxicou moradores, sobretudo idosos e crianças. Outro caso é o de Joacy, em Pau D’Arco, no município de Bacabal, que teve sua roça devastada e a saúde dele e de sua família atingida pela pulverização aérea de veneno.
São episódios que expõem a face mais brutal dessa violência: o veneno não fica na plantação, ele entra nas casas, atinge a água, a comida e o corpo das pessoas. São episódios que dão rosto aos números e mostram que a pulverização aérea não é apenas uma técnica agrícola: é instrumento de ameaça, expulsão e sofrimento.
O que o relatório confirma
A violência química no Maranhão não é um episódio isolado nem um fenômeno disperso: ela é territorial, repetida e dirigida, atingindo sobretudo comunidades tradicionais, quilombolas e indígenas. O Mapa do Veneno de 2026 confirma o que as comunidades vêm denunciando há anos: a pulverização de agrotóxicos no Maranhão não é exceção, nem acidente. É uma método cruel, é uma política de agressão que avança sobre territórios, corpos e modos de vida.
A saída
O texto deixa claro que o Maranhão não enfrenta um episódio isolado, mas uma violência química contínua, territorializada e dirigida contra povos que já vivem sob pressão do agronegócio. Diante desse quadro, a saída não pode ser a omissão: é preciso proibir a pulverização aérea, proteger as comunidades e responsabilizar quem transforma o veneno em arma sobre a vida.
Download do relatório



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