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Guerra Química no Maranhão: 239 ataques com agrotóxicos atingem 200 comunidades em 4 meses

  • há 20 horas
  • 5 min de leitura

Em abril, o Mapa do Veneno registra 21 comunidades vitimadas; ataques com drones contaminam água e intoxicam famílias em Duque Bacelar, enquanto novas frentes de resistência aprovam leis protetivas. 


Monitoramento da Rede de Agroecologia do Maranhão (RAMA), em parceria com a Federação dos Trabalhadores Rurais (FETAEMA) e o Laboratório de Extensão, Pesquisa e Ensino de Geografia da UFMA (LEPENG/UFMA), consolida um cenário de violência sistemática e sem precedentes nos primeiros quatro meses de 2026. Os números comprovam que a guerra química no campo não apenas persiste, como se intensifica, impulsionada pelo uso cada vez mais frequente e indiscriminado de drones.



Balanço geral: janeiro a abril de 2026


  • 239 ocorrências de pulverização aérea de agrotóxicos foram registradas.

  • 200 comunidades em 31 municípios foram diretamente impactadas.

  • A reincidência é uma das faces mais perversas desse modelo: 36 comunidades (18% do total) foram atingidas mais de uma vez, totalizando 39 ocorrências que são repetições de ataques.

  • Isso representa uma média de duas ocorrências por dia ao longo de 120 dias.


Mapa do Veneno 1º Trimestre de 2026

Fonte: RAMA / FETAEMA / LEPENG-UFMA


Destaques do mês de abril: 21 novas comunidades no mapa


Em abril, 8 municípios registraram ataques que atingiram 21 comunidades:

  • Bom Jardim (5): Com. Antônio Conselheiro, Horizonte Azul, PA Rio dos Bois, Terra Livre e Vila Nova.

  • Nina Rodrigues (5): Boa Vista, Cajueiro, Campestre, São Domingos do Chiquito e Zorra.

  • Vila Nova dos Martírios (4): Canaã, Palmeira, Riacho das Traíras e Sapucaia.

  • São Benedito do Rio Preto (3): Bacabal, Cancela, Guarimã.

  • Bacabal (1): Centro dos Correias.

  • Brejo (1): Sede municipal.

  • Duque Bacelar (1): Santo Antônio.



Casos emblemáticos: a brutalidade da guerra química


Vila Nova dos Martírios: a face oculta da expansão do eucalipto


A expansão descontrolada da monocultura do eucalipto, encabeçada por corporações como a Suzano Papel e Celulose, avança sobre os territórios e sufoca a vida das famílias camponesas. As comunidades de Canaã, Palmeira, Riacho das Traíras e Sapucaia denunciam há anos uma realidade cruel. O sobrevoo constante de aviões despejando agrotóxicos é uma ameaça antiga, mas a tática de morte se modernizou. Mais recentemente, as famílias relatam o uso de drones para pulverizar veneno de forma ainda mais rasteira sobre as roças e as águas.


A contaminação dos rios, a morte dos peixes e os constantes sintomas de intoxicação, que atingem sobretudo crianças e idosos, revelam o verdadeiro custo desse modelo: lucro para as empresas de celulose e adoecimento para o povo.


Duque Bacelar: veneno, contaminação e a revogação de uma lei protetiva


O caso do povoado Santo Antônio expõe a face mais cruel da guerra química. Em 10 de abril, moradores flagraram um drone sobrevoando a comunidade e despejando veneno que destruiu plantações, atingiu casas e contaminou o cacimbões, fontes essenciais de água potável. Idosos e crianças apresentaram sintomas graves de intoxicação.


O que torna este caso ainda mais grave é o contexto político: Duque Bacelar possuía uma lei municipal (nº 185/2002) que proibia a pulverização aérea de agrotóxicos. No entanto, a lei foi revogada por intermédio do atual prefeito da cidade que encaminhou o projeto à Câmara Municipal, abrindo alas para o atentado contra a própria população que deveria proteger.


Bacabal: vitórias e desafios na luta contra o veneno


A situação de Bacabal mostra bem a contradição do país: ao mesmo tempo que a comunidade conquista uma lei de proteção, os ataques com veneno continuam acontecendo, o que prova que a lei sozinha não basta. 


Em março, após a forte repercussão do caso do agricultor Seu Joacy, da comunidade Pau D'Arco – que teve sua produção para consumo próprio e para a merenda escolar destruída por um drone, além de ter sua família intoxicada – a Prefeitura publicou o Decreto nº 1.016, de 6 de março de 2026, declarando situação de risco sanitário e suspendendo a pulverização aérea. A mobilização popular resultou na Lei Municipal nº 1.725, de 26 de março de 2026, que proíbe definitivamente a prática em todo o território municipal, estabelecendo multa de R$ 50 mil por ocorrência.


No entanto, os ataques aéreos em Bacabal não pararam. O caso do ataque à comunidade Centro dos Correias, registrado em abril, é a prova de que o agronegócio segue desrespeitando qualquer norma e agindo confiantes na impunidade, mas o caso está sendo investigado. 



Drones Fantasmas e a Regulamentação Perigosa (A tecnologia do veneno)


Drones Fantasmas e a Regulamentação Perigosa


A pulverização aérea com drones é uma das principais causas da expansão da "guerra química" no Maranhão. Diferente dos aviões, que são mais fáceis de identificar, os drones operam de forma discreta, muitas vezes à noite e nos fins de semana, dificultando flagrantes e a responsabilização. Os chamados "drones fantasmas" são equipamentos frequentemente não registrados, pilotados de forma clandestina, em horários irregulares e em desacordo com qualquer critério técnico de segurança, transformados e utilizados não como ferramentas agrícolas, mas como armas de intimidação e expulsão contra comunidades tradicionais.


A legislação brasileira é permissiva e perigosa. A Portaria MAPA nº 298/2021 autoriza a pulverização a apenas 20 metros de residências, escolas e mananciais, uma distância totalmente incompatível com a segurança das comunidades.


Um estudo publicado na Revista Atatot (UEG), assinado por Ariana Muniz, Diogo Cabral e Luís Pedrosa, comprova que temperaturas acima de 30°C e umidade frequentemente inferior a 55% tornam a prática tecnicamente inviável na maior parte do ano no Maranhão, ampliando o fenômeno da deriva: o deslocamento do veneno pelo vento para muito além do alvo, intoxicando pessoas, animais, plantações e fontes de água que estariam teoricamente a salvo.


Entre 2024 e 2026, o mesmo estudo registrou 495 comunidades atingidas em 45 municípios — 85% delas territórios tradicionais. Apesar disso, o Maranhão segue sem uma lei estadual que proíba a pulverização aérea, deixando as comunidades reféns de legislações municipais fragmentadas e de uma regulamentação federal que favorece o agronegócio em detrimento da vida.



Violações de direitos humanos e retrocesso no legislativo


A pulverização aérea de agrotóxicos fere direitos humanos fundamentais: o direito à saúde, ao meio ambiente equilibrado, à alimentação adequada e ao território. O retrocesso legislativo é uma ferramenta poderosa do agronegócio. O caso de Duque Bacelar é um símbolo disso: ao revogar uma lei protetiva, o poder público se tornou cúmplice do envenenamento de sua própria população.



Denúncia, resistência e vitórias


Apesar da violência e dos retrocessos, a luta contra o veneno vai avançando nos municípios. No dia 18 de maio, a Câmara Municipal de Carutapera, no litoral norte do Maranhão, aprovou por unanimidade um projeto de lei que proíbe a pulverização aérea de agrotóxicos no município, alinhando-se à luta de outras cidades maranhenses que já possuem leis protetivas, como Bacabal, Timbiras e Aldeias Altas.


As comunidades seguem resistindo. A Comunidade de Sapucaia, em Vila Nova dos Martírios, concluiu recentemente um protocolo de consulta para a defesa de seu território, um ato de resistência fundamental.


A RAMA, em parceria com a FETAEMA e o LEPENG-UFMA, segue documentando, denunciando e encaminhando os casos às autoridades, além de assessorar juridicamente as comunidades afetadas.



Conclusão e exigências


O relatório aponta seis medidas que precisam ser adotadas com urgência pelo Estado:

  • Lei estadual proibindo a pulverização aérea de agrotóxicos em todo o Maranhão

  • Fiscalização em tempo real das operações com drones, com identificação e punição dos responsáveis

  • Implementação do Plano Estadual de Vigilância em Saúde de Populações Expostas a Agrotóxicos (VSPEA)

  • Reparação integral às comunidades atingidas, incluindo recomposição de danos materiais e acompanhamento de saúde

  • Apoio público à transição agroecológica como alternativa ao modelo do veneno

  • Responsabilização criminal dos operadores e contratantes das pulverizações sobre comunidades habitadas


A luta continua. Mapeamos, denunciamos e resistimos.



Lista das Comunidades Atingidas (Janeiro a Abril de 2026)






A guerra química no Maranhão precisa parar. Queremos territórios livres de veneno. 


Expediente


  • Monitoramento e dados: RAMA, FETAEMA, LEPENG/UFMA

  • Textos e análise: (RAMA)

  • Contato para denúncias: WhatsApp (98) 98522-2988


Por: Rede de Agroecologia do Maranhão (RAMA) | Parceria: FETAEMA e LEPENG-UFMA | Mapa do Veneno

 

 
 
 

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