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Babaçu em pé, mulheres em resistência: CMTR MA realiza Intercâmbio agroecológico e fortalece redes e sonhos de uma produção livres de Agrotóxicos no Maranhão

  • há 7 horas
  • 5 min de leitura

Teresinha Menezes, CMTR MA

A agroecologia não é só plantar e colher é um jeito de viver.

Ivanessa Ramos| Coordenação do GT de Juventude da RAMA


O território quilombola São Bento do Juvenal, município de Peritoró-MA, acolheu cerca de 30 mulheres rurais de diferentes comunidades e municípios do estado nos dias 30 e 31 de julho de 2026 para participarem do “Intercâmbio Mulheres e Agroecologia: comunicando saberes, ampliando resistências”, um vibrante espaço de partilha, escuta, aprendizado e resistência.


Com troca de saberes tradicionais sobre agroecologia e conservação da biodiversidade. O intercâmbio foi realizado pelo Coletivo de Mulheres Trabalhadoras Rurais do Maranhão, por meio do projeto Babaçu em pé, Mulheres em resistência: Territórios Livres de Agrotóxicos, uma parceria com o Instituto Salve a Floresta e combinou vivências no campo com momentos de roda de conversa, nos quais temas como a defesa dos territórios, o uso responsável da Terra, da ´Água e o combate ao uso de agrotóxicos ganharam centralidade.


O intercâmbio contou com a presença e participação de mulheres e jovens dos municípios de Peritoró, Alto Alegre e Itapecuru Mirim, Santa Inês e São Luis.  No primeiro dia elas se re-encontram e fortalecem laços, gestos e olhares por meio da mística que desperta a luz interna de cada uma, que somadas a outras luzes iluminam e facilitam o caminhar.


No segundo dia foi feito uma caminhada pelo território, conhecendo culturas, formas de plantio, importantes passo para a manutenção da agrofloresta e dos processos agroecológicos, o manejo da terra e salvaguarda da biodiversidade da floresta. Importante destacar que compreender que o território não é apenas o chão onde se planta, mas um espaço de disputa política, cultural e soberania que precisa ser defendido coletivamente.

 

Marcado pela facilitação de Ivanessa Ramos, membra da coordenação política da Rede de Agroecologia do Maranhão-Rama, engenheira Agrônoma e responsável pelo território com sua família, destacou a relação de intimidade, troca e cuidado com a natureza - “A gente tem construído messe lugar no processo da agroecologia, no cuidado coma a terra, dessa relação de se sentir parte da natureza e cuidar dela como se estivesse cuidando do nosso corpo”.

Ela reforça que essa relação se aproxima especificamente das mulheres por meio do poder de fecundar, nutrir e gerir a vida em todas as suas formas. “Se formos comparar, a terra é como um ventre e a nós mulheres, a forma como somos e como a terra produz, como a semente nasce, gera a vida.

 

A experiência com a agrofloresta e agroecologia contribuiu para ampliar a compreensão das mulheres sobre a possibilidade de plantar, colher e viver sem veneno, produzindo alimentos que geram vida e saúde, como uma herança ancestral de ajudar a natureza a produzir, sem agredi-la. “Aqui é bem diferente do nosso território, aqui tem buriti, cupuaçu, frutas que não temos lá, mas vi que é possível levar algumas coisas daqui pra nossa terra. É impressionante a forma como a Ivanessa cuida daqui sem usar veneno, mas hoje vi que é possível ter mais cultivação, é interessante a gente conseguir plantar sem veneno, sem destruir a natureza”, reforça Maria Francisca – Quilombola da comunidade Boa Hora III, município de Alto Alegre- MA  


Entre o Agro e o Fogo resiste a organização coletiva e força do voto das mulheres


O território quilombola visitado é composto por seis comunidades: São Bento do Juvenal, Lago Grande, Santa Maria, Giquiri, Sossego, Eira dos Coqueiros e São Benedito dos Barros, ladeadas por grandes fazendas do agronegócio com proprietários muitas vezes políticos influentes, sofrem com diversas violências. São Bento do Juvenal sofre há anos com ameaças de expulsão e tentativas de assassinato, inclusive com incêndios criminosos provocados por fazendeiros do agronegócio que se instalam no perímetro, já foram 15 incêndios entre os anos de 2004 e 2020, após todos esses incêndios, o território foi largamente destruído, mas  reconstruído, replantado e fortalecido pelas mãos de quem cuida da terra com amor e respeito.

 

“Estamos no início da campanha eleitoral e é um desafio desenhar estratégias coletivas de resistência a partir do debate do papel do voto feminino e das escolhas nas urnas como ferramentas de defesa desse e de outros territórios que também sofrem com violências, ameaças, pulverização aérea e contaminação de corpos d’água, corpos-territórios e corpos de pessoas, homens, mulheres e crianças que são e estão diariamente sendo contaminadas por agrotóxicos”, declara Teresinha Menezes, coordenadora do  projeto B

De acordo com o Relatório produzido pela Rede de Agroecologia do Maranhão – RAMA, em parceria com o Laboratório de Pesquisa e Ensino em Geografia-LEPENG/UFMA e a Federação dos Trabalhadores Rurais, Agricultores e Agricultoras Familiares – FETAEMA, de janeiro a junho de  2026 foram registradas 255 notificações, 209 comunidades foram atingidas em 33 municípios contaminados pela pulverização aérea no estado. Quando olhamos para as violências sofridas pelas comunidades, são as mulheres as maiores vítimas. São elas que estão na linha de frente, no apoio e nos cuidados, mas são elas também a força política de decisão e de mudança dessa realidade.

 

Estamos numa conjuntura de perda da democracia, de desvalorização do voto feminino e retirada dos direitos das mulheres. Durante as rodas de conversas realizadas no intercâmbio após a caminhada foram apresentados elementos importantes que embasaram o compromisso real com agroecologia, a agricultura familiar e a defesa dos direitos e da vida das mulheres, destacando a importância de comunicar esses saberes ancestrais, afirmando o território como um espaço político de disputa e resistência, fortalecendo a comunicação comunitária como ferramenta de articulação e a consciência coletiva para que as escolhas eleitorais das mulheres estejam alinhadas à defesa de seus modos de vida, dos territórios, de seus direitos e contra o racismo ambiental.


“A muito tempo não via uma floresta tão bem cuidada como aquela, aprendi que pra se trabalhar na terra não precisa de fogo, nem de agrotóxico. A terra é bem cuidada, se trabalha com roça, com frutas, plantando, colhendo. Poque é a fartura da floresta e quem trabalha tem valor e é valorizado. Por isso, nós temos que prestar bem atenção em quem vamos votar, escolher candidatos e candidatas que falam sobre fazer o bem ao nosso município, comunidade. Pra escolher senador, deputado federal, estadual é melhor a gente pensar bem naqueles que estão trabalhando pra nos ajudar e não aqueles que querem apenas enricar a nossas custas”, proclama Dona Cleonildes Silva, trabalhadora rural, na comunidade Poção da Juçarra, Santa Inês-MA.


O encontro teve como propósito central de trocar experiências práticas sobre a produção agroecológica, a preservação e conservação de sementes crioulas e o papel fundamental das mulheres na manutenção da segurança alimentar e nutricional em suas comunidades.



Sementes de Futuro


Ao final do segundo dia, o sentimento geral era de renovação de energias e fortalecimento comunitário. As participantes firmaram o compromisso de replicar as práticas e ideias discutidas em suas próprias comunidades, consolidando uma rede cada vez mais unida de agricultoras agroecológicas no interior do Maranhão.


O intercâmbio reforça que, quando as mulheres do campo se juntam, o resultado ultrapassa a colheita da terra: cultiva-se autonomia, sabedoria ancestral, dignidade e garantia de direitos.



 
 
 

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