ONDE A FLORESTA CAI E O DRONE PULVERIZA, O VOTO FOI EM FLÁVIO BOLSONARO
Série de artigos cruza mapa eleitoral do 1º turno de 2026 com desmatamento, mortes no campo e agrotóxicos
Assessor jurídico da RAMA, o advogado Diogo Cabral sobrepõe à votação municipal do 1º turno de 2026 os dados do INPE, do MapBiomas, da CPT, do CIMI e do Mapa do Veneno. Resultado: a fronteira do agronegócio votou em bloco na extrema-direita, enquanto os territórios de povos e comunidades tradicionais, alvo da violência e da pulverização, votaram em sentido contrário. Os textos estão disponíveis para leitura.
São Luís, 15 de outubro de 2026 — Entre 2019 e 2025, o Brasil perdeu mais de 10,9 milhões de hectares de vegetação nativa, e a agropecuária respondeu por 97% dessa perda. Em 2025, a Comissão Pastoral da Terra (CPT) registrou 1.593 conflitos no campo e 26 assassinatos, o dobro do ano anterior. No Maranhão, foram mais de 608 notificações de pulverização de agrotóxicos sobre comunidades entre 2024 e junho de 2026. Como votaram esses territórios na eleição presidencial de 4 de outubro?
É essa a pergunta que atravessa a série de quatro artigos do advogado popular Diogo Diniz Ribeiro Cabral, mestre em Desenvolvimento Socioespacial e Regional (UEMA), associado da Sociedade Maranhense de Direitos Humanos (SMDH) e assessor jurídico da Rede de Agroecologia do Maranhão (RAMA). O método é o mesmo em todos os textos: sobre o mapa municipal da votação do primeiro turno, em que o vermelho marca a vitória de Lula e o azul, a de Flávio Bolsonaro, o autor lança camadas de desmatamento, conflitos agrários, assassinatos, violência urbana e contaminação por agrotóxicos.
A hipótese, anunciada no primeiro artigo, é que o voto no candidato do bolsonarismo "não se distribui ao acaso no território rural": ele se adensa nas frentes de expansão, onde terra pública, floresta e Cerrado viram ativo privado, e perde força nos territórios tradicionais. O autor adverte que a sobreposição demonstra coincidência espacial, não causalidade, mas a imagem que emerge dos mapas é difícil de ignorar.
A fronteira agrícola votou na extrema-direita
O primeiro artigo, Voto, fronteira e violência, mostra que Flávio Bolsonaro teve suas maiores votações estaduais em Roraima (71,06%), Rondônia (67,45%), Mato Grosso (65,15%) e Acre (64,56%), estados inteiramente ou em grande parte na faixa de expansão do agronegócio. O candidato venceu em oito dos dez municípios da Amazônia Legal que mais desmataram desde 2016. Em Novo Progresso (PA), palco do "Dia do Fogo" de 2019, obteve 84,13% dos votos válidos, a segunda maior proporção do país; em São Félix do Xingu, 72%; em Altamira, 63%.
As exceções do grupo confirmam a regra. Lábrea (AM) e Portel (PA), onde Lula venceu com 57% e 62%, são municípios de reservas extrativistas, assentamentos agroextrativistas e população ribeirinha.
No Cerrado, a associação muda de forma. Maranhão, Piauí e Bahia deram ampla vitória a Lula, mas o voto em Flávio aparece como enclave com endereço certo. No Maranhão, ele venceu em apenas seis dos 217 municípios: Açailândia, Balsas, Imperatriz, Estreito, Itinga do Maranhão e São Pedro dos Crentes, todos no oeste e no sul do estado, na faixa da soja, da pecuária, da siderurgia e do eucalipto. Na Bahia, venceu em Luís Eduardo Magalhães, polo da soja no oeste, e em três municípios do extremo sul, região de disputa fundiária com o povo Pataxó.
O texto também aponta que, nos dez municípios de maior valor da produção agrícola do país, Flávio somou 23,6% mais votos do que Jair Bolsonaro em 2022.
Duas geografias da morte no campo
O segundo artigo, Voto, fronteira e morte no campo, georreferencia 205 vítimas de assassinatos em conflitos agrários e socioambientais entre 2019 e 2026, a partir das tabelas da CPT e do relatório Assassinatos no campo no estado do Maranhão: 1964–2026, da RAMA. Na escala estadual, não há correlação entre o número de mortos e o voto em Flávio Bolsonaro. Na escala municipal, porém, o padrão aparece: 108 vítimas (53%) foram assassinadas em municípios onde o candidato do PL obteve maioria, e essa proporção chega a 100% em Rondônia, Roraima e Mato Grosso do Sul.
A clivagem territorial é também uma clivagem de sujeitos. Sem-terra, assentados e indígenas morrem majoritariamente em municípios bolsonaristas, nos acampamentos de Rondônia, entre os Yanomami de Roraima e os Guarani e Kaiowá do Mato Grosso do Sul. Quilombolas, quebradeiras de coco babaçu, posseiros e ribeirinhos morrem majoritariamente em municípios lulistas, na Baixada Maranhense, no Baixo Tocantins e no extremo sul da Bahia.
O Maranhão é o caso-limite dessa segunda geografia. As 33 vítimas do período ocorreram em 17 municípios, todos de maioria de Lula. Arari, na Baixada, concentra sozinho seis mortos em quatro anos, ligados à denúncia do cercamento dos campos naturais por criadores de búfalo. Os assassinatos ocorrem nas regiões de ocupação antiga (Baixada, Cocais, Pindaré e Gurupi) e nas terras indígenas intrusadas por madeireiros, e não na fronteira da soja, que "ameaça, despeja e envenena", mas mata menos.
O artigo lembra que a taxa de responsabilização dos 157 casos maranhenses analisados pela RAMA é inferior a 1%, com 55% deles sem sequer inquérito instaurado. A conclusão é direta: a oligarquia maranhense "não precisa do voto bolsonarista para matar".
Um terceiro texto da série, Violência, fronteira e voto, sobrepõe à mesma matriz eleitoral as vinte cidades mais violentas da Amazônia Legal, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, e discute a hipótese de mobilização de grupos criminosos em favor do candidato do PL.
Voto e veneno: quem pulveriza e quem é pulverizado
O quarto artigo, Voto e veneno, fecha o ciclo ao projetar sobre o mapa eleitoral os quinze polos de maior concentração de contaminação por agrotóxicos no campo brasileiro, identificados com dados do IBAMA, do SINAN/DATASUS, do ICMBio, da RAMA, da CPT e da literatura científica. O pano de fundo é o recorde de 907 mil toneladas de ingredientes ativos comercializados em 2024, a Lei 14.785/2023, conhecida como "Pacote do Veneno", e a decisão do STF que, em dezembro de 2025, manteve os benefícios fiscais aos agrotóxicos.
Dos quinze polos, dez estão inteiramente em território azul: o norte de Mato Grosso, o Tocantins, o sudoeste de Goiás, o cone sul do Mato Grosso do Sul, o oeste do Paraná, a Campanha gaúcha, o Espírito Santo, o sul de Rondônia e, como ilhas azuis no mar vermelho do Nordeste, Balsas, Uruçuí e Bom Jesus, no Matopiba, e Luís Eduardo Magalhães, Barreiras e São Desidério, no oeste baiano. São os territórios de maior consumo de veneno, onde se concentram as 2.866 aeronaves agrícolas do país.
Os cinco polos restantes contam outra história. O Baixo Parnaíba, os Cocais e o Médio Mearim, no Maranhão, a Chapada do Apodi, no Ceará, e o Vale do São Francisco são polos de contaminação de vítimas, não de consumo: quilombolas, indígenas, quebradeiras de coco e assentados atingidos pela deriva de fazendas vizinhas. Todos votaram majoritariamente em Lula. A Pré-Amazônia maranhense, onde o vermelho das comunidades e o azul de Açailândia e Imperatriz se entrecruzam, é o caso intermediário: ali, escreve o autor, "a fronteira eleitoral é literalmente a fronteira entre quem pulveriza e quem é pulverizado".
O texto chama atenção para um dado que a RAMA denuncia há dois anos: o Maranhão aparece entre as menores incidências oficiais de intoxicação do país, enquanto a rede, a FETAEMA e a UFMA registram ali a maior concentração de ataques químicos a comunidades. Só no primeiro semestre de 2026, o Mapa do Veneno validou 255 notificações em 209 comunidades de 33 municípios, com 94% dos ataques feitos por drones.
O artigo encerra enquadrando a contaminação como violação de direitos humanos, com base nos casos Portillo Cáceres e Campo Agua'ẽ vs. Paraguai, do Comitê de Direitos Humanos da ONU, e nas sentenças da Corte Interamericana em Lhaka Honhat vs. Argentina, La Oroya vs. Peru e Comunidades Quilombolas de Alcântara vs. Brasil. Cada polo vermelho do mapa, conclui, é um caso potencial de responsabilidade internacional do Estado brasileiro.
Por que ler
A dez dias do segundo turno, marcado para 25 de outubro, a série oferece ao movimento social, aos pesquisadores e ao sistema de justiça uma leitura territorial da disputa que as pesquisas de opinião não alcançam. Os mapas em página ampliada, que acompanham cada artigo, foram elaborados pelo próprio autor a partir de dados públicos e dos levantamentos da RAMA, da FETAEMA e do LEPENG/UFMA.
A conclusão dos quatro textos converge: o desmatamento, a violência no campo e a pulverização de comunidades têm a mesma geografia, os mesmos atores e o mesmo padrão de impunidade. E essa geografia, em 4 de outubro, votou. Como escreve o autor, resta ao sistema de justiça fazer com que o mapa "deixe de ser apenas denúncia e passe a ser a prova de violações de direitos humanos".
Leia os artigos:
• Voto, fronteira e violência: desmatamento, conflitos no campo, expansão do agronegócio e a geografia do voto em Flávio Bolsonaro no primeiro turno de 2026 — [link para o PDF]
• Voto, fronteira e morte no campo: assassinatos em conflitos agrários e socioambientais (2019–2026) e a geografia do voto em Flávio Bolsonaro no primeiro turno de 2026 — [link para o PDF]
• Violência, fronteira e voto: as cidades mais violentas da Amazônia Legal e o primeiro turno de 2026 — [link para o PDF]
• Voto e veneno: polos de contaminação por agrotóxicos, conflitos socioambientais e a geografia do voto em Flávio Bolsonaro no primeiro turno de 2026 — [link para o PDF]
Sobre o autor: Diogo Diniz Ribeiro Cabral é advogado (OAB/MA 9.355), mestre em Desenvolvimento Socioespacial e Regional pela UEMA, associado da Sociedade Maranhense de Direitos Humanos e assessor jurídico da RAMA. É autor da dissertação Fincados na terra como um bacuri: a luta da comunidade Carrancas pelo direito de existir (2023) e organizador dos relatórios Conflitos e lutas dos trabalhadores rurais no Maranhão (FETAEMA, 2021 e 2022).



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