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Balanço de 2025: Guerra Química Avança no Maranhão com 100 Comunidades Atingidas por Agrotóxicos em 6 Meses

Atualizado: 18 de set. de 2025


O primeiro semestre de 2025 (janeiro a junho) registrou 100 comunidades atingidas por pulverização de agrotóxicos no Maranhão. Os dados, consolidados pela Rede de Agroecologia do Maranhão (RAMA), o Laboratório de Extensão, Pesquisa e Ensino de Geografia da UFMA (LEPENG/UFMA) e a Federação dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares do Estado do Maranhão (FETAEMA), mostram que esses ataques ocorreram em 25 municípios e representam uma queda de 39,7% no número de comunidades atingidas em relação ao mesmo período de 2024 (166 comunidades)


Em julho, mais 3 comunidades foram atingidas, elevando o acumulado do ano para 103. Este número anormalmente baixo no sétimo mês seguido por um agosto sem nenhuma denúncia registrada, não significa fim da violência. Ela alerta para a possibilidade de subnotificação, intimidação das comunidades e uso de táticas mais sutis pelo agronegócio, como pulverização noturna e o uso de "drones fantasmas" (não identificados) para dificultar a responsabilização.


O segundo semestre, mesmo com um cenário de subnotificação, confirma que os ataques seguem como uma arma para expulsar populações tradicionais de seus territórios. Uma comunidade intoxicada já é inaceitável; 103 mostram que a crise permanece e se expande para novos territórios.


Os Números da Destruição: Comparativo 2024 vs. 2025

Período

Comunidades Atingidas

Municípios com Ocorrências

Jan-Jun de 2024

166

25

Jan-Jun de 2025

100

25

Variação

Queda de 39,7%

0



Como interpretar esta queda?


A redução no número de comunidades atingidas com relação ao mesmo período de 2024 não significa, necessariamente, que a violência do agronegócio diminuiu. Diante do contexto de conflitos, é preciso analisar este dado com atenção e considerar outras possibilidades:

  1. Subnotificação e Medo: A intensa e contínua intimidação e ameaças diretas contra lideranças pode estar silenciando denúncias. Comunidades isoladas e cercadas pelo medo têm mais dificuldade de acessar canais de denúncia.

  2. Estratégias do Agronegócio: O aperfeiçoamento de táticas para reduzir flagrantes e dificultar a responsabilização, como o uso de drones fantasmas não registrados, pulverizações noturnas e em finais de semana, torna os ataques mais sutis e difíceis de serem documentados e comprovados.

  3. O Efeito das Denúncias: É também uma hipótese válida que a pressão constante das organizações e a visibilidade nacional do problema possam ter inibido, em algumas áreas, a prática mais ostensiva dos ataques. No entanto, a manutenção de 100 comunidades atingidas mostra que a prática continua intensa e generalizada.


Seja qual for a razão principal, uma comunidade intoxicada já é inaceitável. O número de 100 comunidades atingidas em apenas seis meses segue sendo alarmante e revela a permanência de um padrão de violação de direitos e de devastação ambiental.


Julho de 2025: Novos Municípios no Mapa da Contaminação


O mês de julho registrou 3 novas comunidades atingidas, elevando o total do ano para 103. Esses ataques marcaram a entrada de dois novos municípios no mapa da contaminação de 2025: Imperatriz e Pedro do Rosário.


Longe de ser uma boa notícia, este número anormalmente baixo para nós soa como um alerta vermelho. Ele coincide com relatos de intensificação da intimidação e de estratégias sutis que têm como base promessas de empresários do agronegócio de cobrir prejuízos à agricultores e agricultoras familiares quando tem suas roças impactadas por pulverização de agrotóxicos.


As comunidades violentadas em julho foram:

  • Timbiras (Novamente): Comunidade Marmorana (Território Campestre). Relatos apontam o uso de drone como arma escolhida que por força da deriva ou de forma indiscriminada envenenou quintais e roçados, contaminando o ar e destruindo plantações de feijão e mandioca, base da alimentação e da renda local. Destacamos: Timbiras possui lei municipal que proíbe a pulverização aérea de agrotóxicos por avião e drone. O descumprimento da lei é flagrante na região.

  • Pedro do Rosário: Comunidade Tradicional Quadra Trindade. Outro ataque via drone que não poupou o sustento das famílias. Roçados de diversos tipos de plantações, sobretudo o plantio de mandioca, em certas localidades da comunidade foi totalmente perdido, gerando insegurança alimentar e prejuízo econômico.

  • Imperatriz: Comunidade Viva Deus. A inclusão de um município de grande porte e importância logística como Imperatriz no mapa da contaminação demonstra como a fronteira do agronegócio é agressiva e se expande em todo o estado.


O Silêncio de Agosto: A Confirmação de uma Tática


O monitoramento da RAMA, LEPENG/UFMA e FETAEMA não registrou nenhuma denúncia de novas comunidades atingidas durante o mês de agosto de 2025.


Este fato corrobora e amplifica a análise feita sobre os dados do primeiro semestre: a aparente calmaria é o sintoma do sucesso das táticas de intimidação e ocultação do agronegócio.


O silêncio não é ausência de conflito. É a fase em que o medo se impõe, as comunidades ficam isoladas e os crimes se tornam ainda mais difíceis de rastrear. É um dos capítulos mais graves desta crise.


O mapa do acumulado do primeiro semestre de 2025: O Retrato Territorial da Violência




Este mapa ilustra a dispersão geográfica das 104 denúncias, realizadas em 100 comunidades de 25 municípios de janeiro à julho de 2025 em todo o Maranhão.


A diferença entre o número de denúncias e de comunidades atingidas por pulverização de agrotóxicos confirma que houve repetição de ataques: pelo menos quatro denúncias representam ataques recorrentes em localidades já vitimadas.


A pulverização aérea não é um problema pontual. É uma estratégia coordenada para intimidar e expulsar comunidades, abrindo espaço para serem ocupadas por campos extensos de monoculturas como soja, milho e pasto para gado.


Casos Emblemáticos do Primeiro Semestre


Além dos números, alguns casos ilustram a gravidade e a abrangência dos ataques nesse primeiro semestre de 2025:

  • Terra Indígena Alto Turiaçu: Várias aldeias sofreram com pulverizações aéreas que atingiram a Amazônia Maranhense, suas roças, corpos, fontes de água, violando a soberania dos povos originários.

  • Projeto Salangô (São Mateus do Maranhão): Pulverizações maciças por aviões afetaram a saúde de moradores e destruíram a produção da agricultura familiar. Reveja aqui.

  • Região Leste como São Benedito do Rio Preto, Brejo, Duque Bacelar e Urbano Santos: Esta região segue como um dos epicentros históricos dos conflitos, com comunidades constantemente vulneráveis à deriva de veneno das vastas plantações de monocultura.

  • Timbiras: Segue sendo um símbolo de impunidade, com ataques recorrentes mesmo com uma lei municipal que proíbe a pulverização aérea.

A lista completa de comunidades vitimadas de janeiro a julho de 2025:

  1. Açailândia: Assentamento Califórnia

  2. Afonso Cunha: Barracão, Olho D'Água do França

  3. Altamira do Maranhão: Caldeirão, Olho D’Água, São Raimundo

  4. Araguanã: Maratoyrenda (TI Alto Turiaçu)

  5. Bacabal: Barreirinhas, Catucá, Fundamento, Jardins, Piratininga, Santa Efigênia, Santa Maria, Santo Antônio, Seco das Mulatas e Sobradinho

  6. Brejo: Boca da Mata, Carrapatinho, Centro dos Netos, Criolis, Faveira, Gameleira, Guarimã, Ingá, Lagoa Seca, Macacos dos Vítos, Panela, Prata, São João dos Pilões, São José, São Raimundo, Tabocas, Várzea do Meio, Veado Branco, Vila das Almas

  7. Buriti: Araçá, Vila

  8. Centro do Guilherme: Inajaiatyrenda (TI Alto Turiaçu), Murutyrenda (TI Alto Turiaçu)

  9. Centro Novo do Maranhão: Gurupiuna (TI Alto Turiaçu)

  10. Duque Bacelar: Paisandu, Roça do Meio

  11. Esperantinópolis: Potó

  12. Imperatriz: Viva Deus

  13. Lago do Junco: Bairro Nova Brasília

  14. Magalhães de Almeida: Alto do Cedro, Entreladeiras, Férias, Lagoa do Bacuri, Oitis, Santa Maria, Vargem Grande

  15. Parnarama: Quilombo Cocalinho

  16. Pedro do Rosário: Quadra Trindade

  17. Peritoró: Feliz Alegria

  18. Santa Inês: Bom Jesus

  19. São Benedito do Rio Preto: Baixão dos Rochas, Baixinha, Baixinha dos Carneiros, Cancela, Capelão, Chororó, Macajuba, PA Vista Verde, Quebra Joelho, Santa Rosa, Santo Inácio

  20. São Francisco do Brejão: Centro do Robertão

  21. São Luís Gonzaga do Maranhão: Geré, Mata Burro

  22. São Mateus do Maranhão: Água Branca, Água Branca I, Água Branca II, Água Branca III, Água Branca IV, Água Branca V, Água Branca VI, Água Preta, Alto Grande, Andirobal, Curva, Dendê, Setor MA-01, Vila Nova

  23. São Raimundo do Doca Bezerra: Conrado, Monte Castelo, Três Rios

  24. Timbiras: Canapistola (Território Campestre), Jaibara, Mamorana, Morada Nova

  25. Timon: Boa Esperança

  26. Urbanos Santos: Cajazeiras, Serraria, Sítio do Meio, Surrão

  27. Viana: Aldeia Cajueiro, Aldeia Nova Vila, Aldeia Taquaritiua, Baía, Piraí, Vilinha


Padrões de Violação: A Evolução da Tática da Guerra Química


Os relatos das 104 notificações, mostram a evolução do modus operandi do crime:

  1. Uso Crescente de Drones: Permitem ataques mais silenciosos, precisos e difíceis de rastrear, burlando até mesmo a fiscalização e as leis que muitas vezes regulam apenas aviões.

  2. Ataque à Soberania Alimentar: O alvo não é mais "apenas" a saúde, mas diretamente a base de sustento – as roças de mandioca, feijão e milho.

  3. Desprezo pela Lei: Ataques em municípios com legislação restritiva mostram que o poder econômico do agronegócio se coloca acima da lei.

  4. Intimidação Estratégica: O número baixo de julho e o silêncio completo de agosto são, eles próprios, um indício de que a violência e a ameaça estão surtindo efeito em silenciar as vítimas.

A Urgência de uma Resposta Estrutural


Os dados do primeiro semestre de 2025 não são apenas números. São 100 territórios em luta, modos de vida ameaçados, milhares de crianças, mulheres e homens intoxicados constantimente. 


A perda de roças da agricultura familiar, o medo imposto sobre comunidades, a intoxicação sobretudo de crianças e idosos, a contaminação das águas como as dos rios, igarapés, poços cacinbões (água utilizada para higiene pessoal, consumo e preparar alimentos), em todo o território maranhense e ainda a impunidade em Timbiras não é um dano colateral; é um ataque calculado à autonomia dos povos. Diante deste cenário, não basta apenas denunciar. É necessário exigir:

  • A Imediata Suspensão das pulverizações aéreas de agrotóxicos por aviões e drones no estado.

  • Apuração eficaz das denúncias e punição dos responsáveis pelos crimes.

  • Apoio Emergencial às comunidades atingidas: atendimento médico, água potável e assistência técnica para recuperação de suas roças.

  • Fortalecimento da Agroecologia como único modelo capaz de produzir alimentos saudáveis e garantir justiça social e ambiental.


Onde o veneno avança para destruir os babaçuais, a mandioca, a vinagreira, o maxixe, o quiabo e o feijão, as comunidades resistem.


A agroecologia é o caminho.


Como Denunciar:

WhatsApp da RAMA: (98) 98522-2988

Envie fotos, vídeos, áudios e relatos.

Seu anonimato será garantido.


Este mapa é elaborado pela RAMA, LEPENG/UFMA e FETAEMA com base em denúncias recebidas pelos canais de atendimento.


 
 
 
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