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ASSENTAMENTOS DE GOVERNADOR NEWTON BELO-MA SÃO BOMBARDEADOS POR DRONES COM AGROTÓXICOS; MAIS DE 400 FAMÍLIAS DENUNCIAM INTOXICAÇÕES E DESTRUIÇÃO DE ROÇAS.

  • há 5 dias
  • 4 min de leitura

Audiência pública na Câmara Municipal revelou que os ataques ocorrem desde 2025 e apontou um fazendeiro como mandante das operações. Município é o único no Brasil com lei que autoriza pulverização até por helicóptero


Por Rede de Agroecologia do Maranhão — RAMA | São Luís (MA), 27 de março de 2026*


Drones sobrevoando roças, crianças apresentando sintomas de intoxicação, plantações destruídas e fontes d'água contaminadas. Essa é a realidade vivida pelas famílias dos assentamentos Santa Luzia, 28 de Agosto e 16 de Abril, no município de Governador Newton Belo, no Maranhão, que desde 2025 vêm sendo alvo de pulverizações aéreas de agrotóxicos realizadas por drones.


As denúncias vieram a público durante audiência pública realizada na Câmara Municipal de Newton Belo, no último dia 18 de março de 2026, e revelam um quadro de violação sistemática de direitos no campo maranhense que configura, na avaliação da RAMA, uma crise sanitária, humanitária e ambiental de proporções alarmantes. 


Plantação da agricultura familiar impactada por agrotóxicos.
Plantação da agricultura familiar impactada por agrotóxicos.

Mais de 400 famílias sob ataque


Juntos, os três assentamentos reúnem mais de 400 famílias de agricultores e agricultoras familiares, que dependem da terra para comer, sobreviver e gerar renda. São famílias que cultivam roças de mandioca, milho, feijão e outros alimentos que sustentam não apenas suas mesas, mas também feiras e mercados locais.


Tudo isso tem sido sistematicamente destruído pelas pulverizações. Segundo os moradores que participaram da audiência, os drones passam sobre as comunidades sem aviso prévio, lançando agrotóxicos que se dispersam pelo ar, atingem plantações, córregos, quintais e as próprias casas. Mulheres, crianças, idosos e trabalhadores do campo ficam diretamente expostos às substâncias químicas, sem qualquer proteção ou possibilidade de defesa.


"A gente sente o cheiro e começa a passar mal" 


Os relatos colhidos nas comunidades dão dimensão humana ao que os laudos técnicos chamam de "intoxicação aguda e crônica". Moradores descrevem tonturas, náuseas, dores de cabeça, irritação nos olhos e na pele, além de sintomas neurológicos e emocionais que persistem após as pulverizações. Gestantes e crianças — os grupos mais vulneráveis aos efeitos dos agrotóxicos — estão entre as vítimas mais preocupantes relatadas durante o evento.


A situação configura uma emergência sanitária em curso, agravada pela repetição dos ataques ao longo de dois anos consecutivos. A contaminação de fontes hídricas, a destruição de culturas alimentares e o adoecimento progressivo da população compõem um cenário de colapso sanitário e ambiental que exige resposta imediata do poder público.


Quem manda nos drones? 


As denúncias apresentadas na audiência apontam um nome: o Sr. Antonio dos Pneus, pai do prefeito de Santa Inês,  é identificado pelos moradores e participantes do evento como o mandante das operações com drones  sobre os territórios dos assentamentos ocorridos em 2026. O caso já é de conhecimento pelo Ministério Público. A Promotoria de Justiça de Zé Doca, vinculada ao Ministério Público do Maranhão, instaurou Inquérito Civil nº 000755-265/2025 para apurar práticas de pulverização aérea de agrotóxicos ocorridas em 2025, tendo como polo passivo o Município de Governador Newton Bello  e o Sr. Luís Felipe Oliveira de Carvalho, conhecido como Felipe dos Pneus, prefeito de Santa Inês e dono de fazendas na região.


A existência do inquérito reforça a gravidade das denúncias e demonstra que as violações já chegaram ao conhecimento do sistema de justiça — o que torna ainda mais urgente a adoção de medidas concretas de proteção às comunidades atingidas.


Newton Belo no mapa da guerra química 


O caso não é isolado. O Maranhão vive uma escalada alarmante de ataques químicos contra comunidades rurais, que já atingiu proporções de crise sanitária, humanitária e ambiental estrutural.


Entre janeiro e março de 2026, quase 200 comunidades foram vítimas de pulverização aérea de agrotóxicos no estado, um número que evidencia a dimensão do desastre em curso no campo maranhense.


O avanço do uso de drones para pulverização tem acelerado esse cenário de forma dramática, transformando o céu do Maranhão em uma ameaça permanente para as populações que vivem e trabalham na terra, aprofundando uma crise que combina a degradação ambiental dos territórios, o adoecimento coletivo das comunidades e a destruição das bases econômicas e culturais da agricultura familiar.


## A lei que envergonha o Brasil 


Se a situação já era grave, ela se torna ainda mais chocante quando se analisa o marco legal do próprio município. Governador Newton Belo é, até onde se tem notícia, o único município do Brasil a possuir uma lei que autoriza expressamente a pulverização aérea de agrotóxicos por drones e até mesmo por helicópteros sobre o território municipal — trata-se da Lei Municipal nº 243/2025.


Essa norma contraria frontalmente o entendimento consolidado por organismos nacionais e internacionais de saúde pública quanto à ilegalidade e à extrema periculosidade da pulverização aérea, prática proibida ou severamente restrita na grande maioria dos países.

Enquanto municípios como Bacabal debatem a proibição do uso de drones para pulverização, Newton Belo caminha na direção oposta, institucionalizando por lei uma prática que aprofunda a crise sanitária, humanitária e ambiental já instalada em seu território.


A RAMA considera que a Lei Municipal nº 243/2025 é inconstitucional e incompatível com o direito à saúde, ao meio ambiente equilibrado e à vida digna, garantidos pela Constituição Federal de 1988, e anuncia que as autoridades competentes serão prontamente acionadas para sua impugnação.


O que está em jogo 


Para as famílias dos assentamentos Santa Luzia, 28 de Agosto e 16 de Abril, a luta contra as pulverizações não é apenas uma disputa jurídica ou política — é uma questão de sobrevivência. São roças que alimentam filhos, água que sustenta a vida, territórios que guardam histórias e identidades construídas ao longo de gerações. Tudo isso segue ameaçado enquanto os drones continuam a sobrevoar suas casas. A Rede de Agroecologia do Maranhão seguirá ao lado dessas comunidades, documentando os danos, amplificando suas vozes e cobrando das instituições públicas a responsabilidade que lhes cabe. O silêncio diante do envenenamento de populações rurais não é neutralidade — é cumplicidade.

Agricultor familiar relata problema com pulverização de agrotóxicos e impactos em seu plantio

 

 

*** A RAMA autoriza a reprodução desta matéria, desde que citada a fonte. Rede de Agroecologia do Maranhão — RAMA 🌐 rederama.org | 📱 @rederama

 
 
 

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