RAMA fortalece alianças e expõe denúncias Cúpula dos Povos e COP do Povo em Belém
- Rama rede de agroecologia
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Caravana denunciou a guerra química dos agrotóxicos, participou de marchas históricas e articulou ações internacionais pela vida e pelos territórios.
Belém (PA) — Entre os dias 10 e 16 de novembro, a Rede de Agroecologia do Maranhão (RAMA) marcou presença na COP do Povo e na Cúpula dos Povos, em Belém, levando às ruas, aos rios e aos espaços populares a pauta da justiça climática, da defesa dos territórios e da denúncia ao avanço do agronegócio no Maranhão.
A caravana, formada por organizações como ASSEMA, CMTR, AVESOL e Tijupá, reuniu quebradeiras de coco, quilombolas, juventudes, agricultores e agricultoras familiares. A RAMA atuou paralelamente à COP oficial, enfatizando que as soluções reais para a crise climática vêm dos territórios e não das negociações corporativas.
Barqueata dos Povos e Casa do Povo
As atividades iniciaram no dia 12 de novembro, com a abertura da Cúpula dos Povos em um barqueata popular que reuniu cerca de 5 mil pessoas de 60 países. A RAMA integrou o cortejo de mais de 200 embarcações que navegaram pelo Rio Guamá e Baía do Guajará denunciando falsas soluções climáticas e valorizando práticas comunitárias e ancestrais.

“Iniciamos a Cúpula dos Povos com todas as simbologias que carregam os rios da Amazônia, mas também reforçando a nossa resistência diante das falsas soluções apresentadas pela COP30, que carrega consigo a marca dos projetos de destruição da natureza, da poluição dos rios, do envenenamento das florestas e ameaças aos nossos modos de vida”, explica Ayala Ferreira, dirigente nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), no Brasil de Fato.
No mesmo dia, a delegação acompanhou a oficina “Cartografia e Vigilância Popular em Defesa das Águas do Oeste da Bahia”, promovida pela Campanha em Defesa do Cerrado e pela iniciativa Agro é Fogo. O espaço apresentou dados e depoimentos sobre os impactos da expansão da soja e dos grandes empreendimentos agrícolas sobre os recursos hídricos do Cerrado.
Em sua intervenção, Maria José (MAB) destacou a dimensão espiritual e social dos rios para as comunidades: “O rio é uma entidade espiritual para as comunidades.” Ela lamentou a destruição causada pelos empreendimentos: “Quando se prende o rio, se prende também as pessoas!”

Tribunal dos Povos
No dia 13, a RAMA participou da abertura do Tribunal dos Povos contra o Ecogenocídio, realizado no Ministério Público Federal. O tribunal, com um juri composto por ativistas de direitos humanos, representantes de movimentos sociais e povos tradicionais, reuniu 21 casos de violações ambientais e ataques a comunidades. A rede apresentou o caso das comunidades Carranca e Araçá, em Buriti (MA), onde moradores — incluindo crianças — sofreram intoxicação e lesões na pele após episódios de pulverização aérea de agrotóxicos.
As testemunhas, que não puderam ser identificadas por segurança, relataram viver cercadas por lavouras de soja e sofrerem estratégias de desterritorialização que contaminam a água, as plantações e afetam diretamente a saúde das famílias, transformando o território em um ambiente inóspito.
A pulverização aérea foi usada como instrumento para expulsar comunidades das áreas de Carrancas e Araçá, em Buriti, resultando em ameaças ao direito à vida, danos psicológicos, contaminação das fontes hídricas e destruição da biodiversidade local. Destacou-se ainda que cerca de 20 mil famílias já foram afetadas e que o Maranhão lidera o ranking nacional de conflitos agrários, com um aumento de 100% dos casos de violência rural entre 2023 e 2024, segundo dados da Comissão Pastoral da Terra (CPT).
Na sentença final foi proferida no dia 14, pontuando que a natureza vem sendo tratada como patrimônio a ser explorado por grandes corporações e setores financeiros. Assim, mais de 800 empresas foram responsabilizadas — entre elas Cargill, Bunge, Amaggi, JBS, Enel e Norte Energia — além de bancos como BNDES, Banco Mundial e Banco do Brasil.
Foram diversas denúncias sobre a destruição de manguezais, mineração, hidrovias, desmatamento, grilagem, pulverização aérea de agrotóxicos e remoções forçadas. O documento determina reparações urgentes, como demarcação imediata de terras indígenas, reconhecimento dos direitos territoriais, reforma agrária ampla e consulta prévia obrigatória.

Também pede investigação criminal das violações, localização de desaparecidos e proteção a defensores de direitos humanos. A decisão foi assinada por lideranças indígenas, quilombolas, juristas e pesquisadores de vários territórios.
“Esta sentença é mais que decisão: é canto, é tambor, é lamparina acesa na vigília dos povos! É anúncio de esperançar por vida digna no tempo do agora, aqui, nesse espaço onde se encontram os povos e depois, no tempo em que a memória do que vivemos for invocada como força de luta”.
Água e Agroecologia
Ainda no dia 13, o painel “Água e Agroecologia: Diálogos com os territórios nas perspectivas e ações de mitigação das emergências climáticas”, articulado pela Rede de Agroecologia do Maranhão em parceria com a Articulação Semiárido Brasileiro (ASA), reuniu agricultoras, agricultores, lideranças e representantes do governo. A mediação foi feita por Raimundo Alves (Rama/Acesa) e o debate contou com a participação dos agricultores Maria José (Tijupá) e Wesley Paiva (Acesa), da coordenadora da ASA, Ivi Aliana, além de Lilian Rahal (MDS), Alexandre Pires (MMA) e da argentina Antonella Sleiman, da Plataforma Semiáridos.
Wesley Silva e Maria José compartilharam experiências sobre a implementação do sistema de barraginhas, tecnologia social que cria pequenas barragens para captar água das chuvas, reduzir erosão, recarregar o lençol freático e fortalecer a produção agroecológica.
“A gente começou a perceber que estava sendo afetado pelas mudanças climáticas, porque a gente plantava e não dava, não colhia. Por conta das barraginhas, conseguimos implantar um sistema agroflorestal… Infelizmente, ainda não é uma política pública. Se fosse, mudaria a realidade de muitas comunidades”, relatou Wesley.
Já Ivi Aliana destacou como a ASA, a partir dos saberes dos territórios do semiárido, conseguiu implementar políticas públicas de acesso à água, e de que maneira essa articulação pode inspirar outros biomas que hoje também enfrentam secas agravadas pela crise climática. “A ação de enfrentamento das mudanças climáticas precisa ser coletiva. Não basta olhar unicamente para o nosso lugar; é preciso ações articuladas de mitigação. É fundamental observar as inter-relações entre os biomas”, enfatizou.

As tecnologias e sabedorias tradicionais apresentadas pelos territórios apontam caminhos concretos para adaptação e mitigação climática. A partir das experiências compartilhadas no painel, ficou evidente que as comunidades precisam estar no centro do debate e da construção de políticas públicas capazes de garantir água, soberania alimentar e meios de vida, especialmente diante do agravamento das emergências climáticas em todo o país.
Guerra química e denúncias sobre o Maranhão
No dia 14, a RAMA apresentou, na Casa do Povo, o estudo “Pulverização Aérea de Agrotóxicos no Maranhão: Guerra química contra comunidades rurais”, conduzida por Linalva Cunha Cardoso (RAMA), o geógrafo e pesquisador Prof. Clodoaldo Montenegro (LEPENG), e o geógrafo e pesquisador Gustavo Mesquita (LEPENG).
A. O levantamento mostrou que, entre 2024 e 2025, 329 comunidades em 48 municípios foram diretamente impactadas por agrotóxicos. Pesquisadores destacaram que o agronegócio promove um cenário de violações que atinge biomas como Cerrado, Amazônia e Cocais, além de comprometer a soberania alimentar.

A RAMA também participou do Enlace Internacional Contra os Agrotóxicos e Pela Vida, na Tenda Berta Cáceres, em articulação com a Campanha Permanente contra os Agrotóxicos e Pela Vida, discutindo os impactos do uso de venenos, a resistência das agricultoras e agricultores e o papel da agroecologia. Representando a rede, a secretária e pesquisadora Ariana Gomes destacou a realidade dos territórios maranhenses e a urgência de frear o modelo predatório do agronegócio.
Marcha Mundial pelo Clima
Já em clima de encerramento, os movimentos populares ganharam as ruas de Belém no dia 15, durante a Marcha Mundial pelo Clima. A mobilização levou milhares de pessoas às avenidas para denunciar o ecogenocídio, defender a soberania alimentar e reafirmar que não há justiça climática sem a responsabilização do agronegócio. Reafirmando que é preciso que os povos das águas, das florestas e das periferias estejam no centro do debate na construção de soluções climáticas reais.
A Rede de Agroecologia do Maranhão levou seu grito contra os agrotóxicos e de que não há transição justa sem responsabilização do agronegócio pelas “chuvas de venenos” que atingem comunidades rurais e chegam até às nossas mesas com águas e alimentos contaminados.
Ayala Ferreira, da coordenação política da Cúpula dos Povos, disse: "Trazer as nossas mensagens de que os povos do campo, das águas, das florestas e também das cidades têm soluções para essa realidade tão complexa que é o das crises climáticas como nós estamos vivendo."


Contraponto à COP oficial
Durante a semana, integrantes da RAMA visitaram o espaço oficial da COP30 e denunciaram a falta de representatividade dos povos e comunidades tradicionais. A lógica elitizada da conferência, marcada por debates sobre “mercado de carbono” que desconsideram a realidade das populações que enfrentam diariamente a falta de água, a contaminação e a perda de território.
Na avaliação de Didi Alves, coordenador executivo da ACESA: “É um espaço elitizado que você de fato não consegue perceber como que se discute a questão ambiental sem a participação de comunidades, de povos, de territórios tradicionais que têm vivenciado diariamente os desafios em suas comunidades. Como lidar com a questão da produção sem acesso à água? Como manter a segurança alimentar sem ter condições de produzir?”

A participação da RAMA na Cúpula dos Povos reforçou a defesa de um modelo de enfrentamento à crise climática baseado na agroecologia, na autodeterminação dos povos e no combate às falsas soluções promovidas pelo mercado. Com denúncias, articulações e presença ativa em todos os espaços populares, a rede reafirmou que a saída para o colapso climático é coletiva, territorial e agroecológica.
Agradecemos aos nossos parceiros e apoiadores que viabilizaram a presença de nossa caravana nesses dias de trocas e articulações: GrassRoots Internacional, Salve a Floresta, Agroecology Found, Allied, Ternure Facility e Fundo Babaçu.



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