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RAMA denuncia contaminação por agrotóxicos, adoecimento e violações de direitos em comunidades tradicionais de Buriti (MA)

Relatório técnico revela impactos graves na saúde, no território e na vida social dos moradores de Araçás e Carrancas, expostas à pulverização de agrotóxicos e ao avanço do agronegócio


Foto aérea da comunidade tradicional Araças que cercada de campos extensivos de soja.
Foto aérea da comunidade tradicional Araças que cercada de campos extensivos de soja.

Relatório técnico revela impactos graves na saúde, no território e na vida social dos moradores de Araçás e Carrancas, expostas à pulverização de agrotóxicos e ao avanço do agronegócio A Rede de Agroecologia do Maranhão (RAMA) divulgou um relatório técnico que confirma o cenário de adoecimento, contaminação e violação de direitos humanos nas comunidades tradicionais de Araçás e Carrancas, no município de Buriti. A análise foi realizada a partir de visita de campo nos dias 05 e 06 de julho de 2025, registrando sintomas físicos, impactos emocionais, degradação ambiental e relatos diretos de famílias afetadas pela pulverização de agrotóxicos utilizada nas plantações de soja próximas às moradias.


O Relatório foi conduzido pela assistente social e antropóloga Ariana Gomes da Rede de Agroecologia do Maranhão (RAMA), pelo epidemiologista Altemir de Jesus Everton, do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra-MST, e pelo engenheiro agrônomo e mestre em Agroecologia Fábio Pacheco, também da Coordenação Executiva da RAMA. Eles documentaram de forma contundente os impactos da monocultura de soja e a pulverização aérea de agrotóxicos nas vidas das pessoas dessas comunidades.


O documento demonstra que a saúde das comunidades está determinada não apenas por fatores biológicos, mas pelos determinantes sociais da saúde, que incluem ambiente, água, alimentação, território, renda, condições de trabalho e vínculos comunitários. Em Araçás e Carrancas, esses determinantes estão profundamente afetados pelas possíveis contaminações do solo, do ar e da água, pela proximidade das lavouras, pela insegurança alimentar e hídrica e pela fragilidade do acesso à saúde pública.


O avanço do agronegócio cerca as comunidades de Araçás e Carrancas, expondo as famílias a uma rotina de contaminação.
O avanço do agronegócio cerca as comunidades de Araçás e Carrancas, expondo as famílias a uma rotina de contaminação.

A situação de saúde é uma das mais preocupantes. 


Segundo o documento, a proximidade com as lavouras de soja e a constante pulverização de veneno causam uma série de problemas de saúde na população. "Durante o período de pulverização, foram observados sintomas como dores de cabeça, náuseas, vômitos, irritações na pele e problemas respiratórios. Esses efeitos agudos evoluíram para quadros crônicos, como asma e outras doenças respiratórias", descreve o relatório, que também aponta que a exposição prolongada a esses agentes químicos está associada à desregulação endócrina, problemas neurológicos, infertilidade e ao desenvolvimento de diversos tipos de câncer.


Irritações, ferimentos e bolhas na pele de crianças são alguns dos sintomas diretos da exposição aos resíduos de agrotóxicos.
Irritações, ferimentos e bolhas na pele de crianças são alguns dos sintomas diretos da exposição aos resíduos de agrotóxicos.

O relatório também revela a precariedade do sistema de saúde local:


"É importante ressaltar que o acesso à saúde nas comunidades é extremamente precário. A unidade de saúde mais próxima fica distante, e não possui estrutura nem profissionais capacitados para diagnosticar ou tratar doenças crônicas relacionadas à exposição a agrotóxicos. Isso tem resultado em subnotificações, omissão e negligência no atendimento."


As tabelas revelam que crianças e jovens são os mais atingidos. Em Araçás, oito crianças de 0 a 4 anos, dez entre 5 e 9 anos, 11 entre 10 e 14 e quarenta e cinco entre 15 e 20 anos estão expostas aos resíduos de agrotóxico na comunidade. Entre 2021 e 2025, quatro (4) pessoas morreram, duas mulheres e dois homens, sem investigação oficial. Em Carrancas, uma morte foi registrada, igualmente sem diagnóstico, reforçando o padrão de subnotificação deixando um sentimento de incerteza e abandono do estado.


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Os relatos dos moradores dão dimensão humana ao que os números já indicam.


Uma moradora afirma:

“De manhã, toda manhã, eu saía toda molhada de veneno. É de gafanhoto, ou de avião, ou de drone. Seja lá o que for, fica no meio, eles não param nunca pra gente poder passar.”

Outra mãe narra o desespero durante a crise do filho após pulverização:

“Em seguida, perguntei: 'O que aconteceu?' Ela disse: 'N., providencie uma SAMU rapidamente, pois L.A está muito mal.' Diante disso, nem entrei no meu local de trabalho; saí correndo. Consegui um SAMU e liguei para ela, perguntando: 'Minha irmã, como está meu filho?' Ela respondeu: 'Minha irmã, ele não está bem. Ele não está bem, não está conseguindo respirar.”

Uma terceira descreve o sofrimento contínuo:

“Mas se um produto que mata porcos e outros animais não vai atingir a pele da pessoa?”.

A dor do território e a escuta das famílias


O relatório impacta pela riqueza de detalhes e por mostrar, sem maquiagem, o que as comunidades vêm sofrendo com o avanço do agronegócio e a destruição dos territórios onde, por décadas, viviam em harmonia com a natureza. Para aprofundar essa perspectiva, ouvimos Ariana Gomes, que participou diretamente da elaboração do documento e que trouxe para o texto conceitos como racismo ambiental, violações de direitos humanos e solastalgia, uma palavra pouco conhecida, mas profundamente sentida por quem vê o seu lugar desaparecer.


Pergunta da redação: O que mais te marcou emocionalmente e politicamente na escuta das famílias e na elaboração do relatório?


Ariana responde:

“A intenção da ida à região era levar médicos para avaliar inicialmente a situação de uma das crianças. Mas quando chegamos lá, nos deparamos com todas as crianças visitadas com o mesmo quadro de asma crônica, e outras apresentando ferimentos pelo corpo devido ao contato com o solo e com a área contaminada. Então não dava para pensar em um relatório que tratasse apenas da saúde humana, foi preciso olhar para o contexto em que essas crianças e essas pessoas estão vivendo. E esse contexto é o avanço do agronegócio que pulveriza veneno por avião e drone em torno de toda a comunidade. Por isso, foi necessário ter um olhar que ultrapassasse o olhar médico, um olhar ambiental e um olhar sobre as violações de direitos humanos, das crianças, dos idosos e da própria natureza. Destacamos no final do relatório que não é possível pensar em pessoas saudáveis vivendo num território em desequilíbrio. Há um desequilíbrio humano relacionado à saúde, mas há também o desequilíbrio da natureza, das águas, dos animais e da terra.”

A resposta de Ariana expõe o núcleo da denúncia: quando o agronegócio avança pulverizando veneno sobre comunidades tradicionais, além do corpo que inflama, o território inteiro padece. O relatório mostra que a dor vai além das feridas de pele e na respiração das crianças, a dor também aparece na ruptura do vínculo com a terra, na violência simbólica, na expulsão silenciosa e no luto de quem vê seu mundo ser desfigurado. É desse atravessamento que surge a solastalgia, que o documento apresenta como a marca emocional de um território atacado e de um povo que resiste.


A solastalgia é o sofrimento psíquico causado pela perda do lugar, da paisagem e do sentimento de pertencimento. É a dor de continuar vivendo no território, mas sem reconhecê-lo mais, pois ele foi transformado, destruído. O conceito trazido pelo documento reflete a angústia das pessoas que, além dos danos físicos, enfrentam impactos emocionais profundos, como o terror psicológico, causado pelo medo constante, pelas ameaças e pela sensação de expulsão. Esse quadro é agravado pela desestruturação social que enfraquece os vínculos comunitários, rompe as práticas culturais e fere os modos de vida tradicionais.


Depoimento de Altemir de Jesus EvertonAltemir, coautor do relatório, em sua análise detalha os impactos de saúde nas comunidades e a dramática situação enfrentada pelas famílias. A redação também perguntou sobre suas impressões durante a visita e o que mais o marcou.


Altemir descreve:

“O que foi assim mais impactante foi a gente sentir no ar o cheiro forte do veneno, colocado pelo grande fazendeiro numa produção de soja. E ver também os córregos que a gente pôde visitar, nitidamente com veneno. Na lâmina d'água, a gente via os vestígios do veneno nitidamente.”

Altemir também destaca o impacto direto sobre a saúde das comunidades:


"E em Carrancas, as famílias têm contato direto com o veneno. O que separa a comunidade do terreiro onde é despejado o veneno — é aplicado o veneno no monocultivo de soja, no monocultivo de milho — é só uma estrada de 8 a 10 metros de largura. E aí a biodiversidade foi perdida. A biodiversidade que a gente não vê, que era riquíssima em bacuri... a gente vê só onde algumas famílias moram ainda."

Ele também compartilha sua preocupação com a saúde das crianças e os efeitos do veneno:


"E em Araças é mais triste ainda porque em Araçás é rápido da gente perceber que os animais — os animais domésticos, né — estão bem doentes, como os cães, os gatos. Sem dizer as próprias crianças, que não têm condições de brincar nas ruas da comunidade, ou seja, nos quintais ou então nos terreiros, porque é completamente contaminado pelo veneno. É ver que na comunidade não tem uma escola. E as crianças têm que se deslocar dessa comunidade para uma outra comunidade, e têm que passar por dentro do campo, pelo campo agrícola. E muitas crianças passam mal por causa do mal cheiro do veneno que é aplicado nesses campos agrícolas. E isso é toda semana (no período do plantio e colheita) ou eles fazem essa rotina e estudam, ou não estudam.”


Violações de Direitos Humanos e da Natureza


O relatório documenta também as graves violações de direitos humanos e ambientais que ocorrem em Carrancas e Araçás. A exposição contínua aos agrotóxicos resulta em violação do direito à saúde, ao desenvolvimento integral e a viver em um ambiente saudável para as crianças. A saúde das pessoas está sendo seriamente comprometida, com o aumento de doenças respiratórias, problemas neurológicos e outros quadros crônicos relacionados à exposição aos venenos. Os idosos também têm seus direitos violados, com o risco elevado de doenças graves, como câncer e problemas respiratórios, exacerbados pela falta de acesso a cuidados médicos adequados.


A própria natureza também é vítima dessa violação. Os direitos da natureza à regeneração, à água limpa e à existência sem contaminação são desrespeitados. O uso indiscriminado de agrotóxicos está destruindo os ecossistemas locais, exterminando espécies e contaminando a água e o solo.


O relatório também aponta para a insegurança alimentar e hídrica. A água que as famílias consomem, extraída de poços, apresenta o cheiro forte do veneno de acordo com os relatos dos moradores, e os alimentos cultivados nas comunidades são contaminados pela deriva dos agrotóxicos. Animais domésticos adoecem e morrem com frequência, e a biodiversidade local está sendo dizimada. Todos esses fatores se conectam a uma violação dos direitos da natureza, que são sistematicamente ignorados.


Tudo isso acontece em um contexto de racismo ambiental e omissão do Estado, onde o sofrimento dessas populações tradicionais é normalizado, invisibilizado e tratado como custo aceitável do avanço do agronegócio.


O relatório existe para documentar, dar visibilidade e fortalecer as próprias comunidades na defesa de seus direitos, servindo como instrumento de denúncia, de memória e de reivindicação por políticas públicas, cuidado, proteção territorial e garantia de que essas violações não continuem sendo tratadas como algo normal.Ele organiza aquilo que as famílias sentem no corpo, na água, no alimento e no território. Reúne dados, relatos, evidências e vivências para que ninguém possa dizer que “não sabia”, para que o sofrimento não seja silenciado e para que a vida dessas comunidades seja tratada com a dignidade que merece.


E é com essa força que a matéria se encerra, trazendo as palavras finais do próprio relatório:"As informações apresentadas revelam uma violação sistêmica e interconectada dos direitos humanos e ambientais, com impactos severos sobre a saúde, a cultura, a biodiversidade e os modos de vida tradicionais. A exposição crônica a agrotóxicos não é apenas um problema sanitário, é também uma questão de justiça social e ambiental, exigindo respostas urgentes, políticas públicas específicas e responsabilização dos agentes causadores."



ACESSO AO RELATÓRIO COMPLETO




 
 
 

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