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Professor do Maranhão leva denúncia sobre pulverização aérea de agrotóxicos à assembleia mundial da Bayer

  • há 21 horas
  • 5 min de leitura

Convidado pela Coordenação contra os Perigos da Bayer (CBG), pesquisador da UFMA confrontou a diretoria da multinacional com dados da guerra química que avança sobre comunidades tradicionais no estado



No dia 24 de abril, durante a Assembleia Geral Anual da Bayer, realizada em Leverkusen, na Alemanha, o professor e pesquisador Ronaldo Sodré, do Laboratório de Extensão, Pesquisa e Ensino de Geografia (LEPENG) da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), tomou a palavra. Em videoconferência, ele falou em inglês diante da diretoria da maior farmacêutica e uma das maiores fabricantes de agrotóxicos do mundo. O que ele levou para essa sala foi o que comunidades indígenas, quilombolas, camponesas e quebradeiras de coco do Maranhão vêm repetindo há anos: o que acontece no estado não é caso isolado, é padrão de violência e envenenamento.


O convite veio da Coordenação contra os Perigos da Bayer (CBG), rede internacional que, há décadas, monitora e articula ações da multinacional para garantir que vozes dos territórios atingidos tenham vez e voto no espaço mais sensível à empresa: o encontro anual com seus investidores.


Professor Ronaldo Sodré participa remotamente da reunião na assembleia geral anual da Bayer
Professor Ronaldo Sodré participa remotamente da reunião na assembleia geral anual da Bayer

O Maranhão banhado por veneno


Para entender o peso do que o professor Ronaldo Sodré levou à assembleia, é preciso entender o que vem acontecendo no Maranhão. Nos três primeiros meses de 2026, o estado registrou o pior índice da série histórica de pulverização aérea de agrotóxicos sobre comunidades: mais de 220 episódios, atingindo 188 comunidades em 29 municípios. Esses dados integram o levantamento realizado pelo LEPENG/UFMA, em articulação com a Rede de Agroecologia do Maranhão (RAMA) e a Federação dos Trabalhadores e Trabalhadoras na Agricultura do Maranhão (FETAEMA).


Esse retrato de destruição se agrava em janeiro de 2025, quando a Justiça Federal derrubou uma liminar que, por 11 anos, havia proibido a pulverização aérea de glifosato no Maranhão. Obtida pelo Ministério Público Federal em 2013, a liminar era uma das poucas barreiras legais que protegiam comunidades contra um dos usos mais agressivos desse agrotóxico. Com a derrubada da decisão, aviões e drones voltaram a sobrevoar territórios tradicionais despejando aquilo que as comunidades chamam de "mata-tudo" (veneno que o agronegócio batiza convenientemente de "defensivo agrícola"), sobre casas, roças, rios, córregos e sobre os corpos das pessoas que habitam e resistem nesses territórios.


O glifosato está no centro, entre outros agrotóxicos, dessa guerra química. Produto comercializado pela Bayer, ele é o agrotóxico mais utilizado no Maranhão e no Brasil. Em 2015, a Agência Internacional de Pesquisa sobre Câncer (IARC), órgão ligado à Organização Mundial da Saúde, classificou o glifosato como "provavelmente cancerígeno" para humanos. Um novo estudo, publicado em junho de 2025 pelo prestigiado Centro de Pesquisa do Câncer Cesare Maltoni do Instituto Ramazzini, na Itália, reafirmou essa classificação: demonstrou que baixas doses de glifosato e de suas formulações comerciais provocam múltiplos tipos de câncer em animais, incluindo leucemia, tumores de fígado, ovário e sistema nervoso.


Enquanto a ciência aponta o perigo, o arcabouço que sustentava a defesa do glifosato desaba. Em dezembro de 2025, o estudo que por 25 anos foi usado como principal argumento pela Anvisa e por agências reguladoras para atestar a segurança do produto foi oficialmente despublicado. Motivo: conflitos de interesse graves. Descobriu-se que cientistas da Monsanto (empresa comprada pela Bayer em 2018) escreveram secretamente o artigo que negava os riscos do produto, sem revelá-lo ao público.


Estudos produzidos pelo LEPENG, em parceria com RAMA e FETAEMA, documentam os efeitos dessa expansão: famílias adoecendo com vômitos, irritação de pele, irritação nos olhos e problemas respiratórios; roças destruídas, comprometendo a soberania e a segurança alimentar; fontes de água contaminadas; territórios pressionados por uma agricultura que não dá espaço para a vida.



"Não estamos falando de um problema técnico. Estamos falando de um conflito"


Foi com esse acúmulo de dados e histórias que Ronaldo Sodré entrou na assembleia da Bayer. Diante dos acionistas, ele descreveu uma crise em quatro dimensões; de saúde, alimentar, ambiental e de justiça; e rejeitou qualquer leitura que reduzisse os ataques aéreos a acidentes ou erros técnicos. "Há fortes evidências de que essas pulverizações fazem parte de um processo de pressão sobre esses territórios, contribuindo para a expulsão das comunidades de suas terras", afirmou.


Sua síntese foi direta: "Não estamos falando de um problema técnico. Estamos falando de um conflito."


Professor Ronaldo Sodré conduz sua apresentação virtual
Professor Ronaldo Sodré conduz sua apresentação virtual

A partir dessa denúncia, Ronaldo apontou a responsabilidade da cadeia global. Lembrou que a Bayer opera sob regras mais rígidas na Europa, onde o glifosato e outros produtos enfrentam restrições, ao mesmo tempo em que está vinculada a impactos graves em países do Sul Global. Para ele, não se trata de cumprir a lei em um lugar e agir diferente em outro, mas de assumir uma responsabilidade global por vidas humanas, territórios e modos de vida que hoje são tratados como descartáveis.



A base que sustenta a denúncia


O que Ronaldo levou à assembleia não surgiu num gabinete. Surgiu de um trabalho coletivo e persistente de escuta, registro e mapeamento realizado junto às comunidades, conduzido pelo LEPENG/UFMA em articulação com RAMA e FETAEMA. São anos de denúncias sistematizadas, casos levantados no território — no cerrado, na Amazônia maranhense, no MATOPIBA — e pesquisas que cruzam dados geográficos, relatos de adoecimento, registros de contaminação e conflitos por terra.


Esse conjunto de dados atravessou o Atlântico e ecoou na assembleia anual de uma das maiores corporações químicas do planeta, hoje uma gigante dos agrotóxicos. A fala de um pesquisador maranhense numa assembleia de acionistas em Leverkusen é, antes de tudo, a voz de um trabalho coletivo que recusa ser silenciado.



A estratégia dos acionistas críticos


A Coordenação contra os Perigos da Bayer (CBG), rede internacional fundada em 1978 que reúne organizações, pesquisadores e ativistas para intervir diretamente na governança da empresa, articula acionistas críticos, pessoas e organizações que adquirem ações da Bayer para garantir direito de fala e voto nas assembleias, e usa esse espaço para colocar em evidência denúncias que a empresa preferiria manter fora do centro das atenções.


Ronaldo não foi o único a ocupar esse espaço. A Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida (da qual a RAMA faz parte) também esteve presente, por meio de Alan Tygel, que denunciou a venda, pela Bayer, de agrotóxicos proibidos na Europa para países do Sul Global. A convergência entre as denúncias amplia a pressão sobre a empresa e mostra que o cerco é internacional.


Ao final de seu discurso, Ronaldo conclamou os acionistas a apoiarem as contraproposições da CBG, gesto político que marca seu posicionamento dentro dessa disputa.



O impacto de uma voz que não pode ser ignorada


Nas próprias palavras do professor, enviadas após a assembleia:

"Participei da assembleia anual da Bayer. Na ocasião, denunciei os recorrentes casos de pulverização aérea de agrotóxicos em territórios tradicionais no estado do Maranhão e em outras regiões do Brasil. Destaquei que o problema não se restringe a um contexto local, mas representa um padrão mais amplo de violações socioambientais, atingindo principalmente comunidades indígenas, quilombolas e camponesas."


O peso político dessa participação vai além do simbólico. Uma denúncia feita dentro da assembleia anual da empresa circula entre acionistas, gestores e fundos de investimento que se dizem comprometidos com pautas sociais e ambientais, alimenta processos de responsabilização corporativa e reforça a legitimidade de organizações como LEPENG, RAMA e FETAEMA perante instâncias nacionais e internacionais.


O que saiu do Maranhão em 24 de abril não foi apenas uma denúncia. Foi um acerto de contas, feito com dados, com história e com a força de comunidades que resistem ao veneno e à expulsão e que agora têm sua luta exposta no coração do poder corporativo que lucra com isso.



A RAMA — Rede de Agroecologia do Maranhão — integra a Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida e atua em defesa dos territórios tradicionais e da soberania alimentar dos povos do Maranhão.


 
 
 

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